Muitas pessoas têm a falsa ideia de que individualidade é a mesma coisa que egoísmo. E, muitas vezes, por serem confundidas como egoístas, elas não cultivam a própria individualidade. Têm medo de serem tratadas como pessoas egocêntricas.
E até eu mesma me confundi por anos com esses conceitos. Fui confundida por diversas pessoas e me confundi por causa dessas falácias ao longo do tempo.
Existe uma grande diferença entre essas duas questões e eu vou explicar.
Individualidade é você se reconhecer e se valorizar. É valorizar as suas características únicas. É ter autonomia, autorrespeito, autoconhecimento, entender os seus gostos e como você quer viver a sua vida.
Já o egoísmo é uma preocupação excessiva com os próprios interesses, muitas vezes prejudicando outras pessoas, buscando vantagem pessoal sem considerar o bem-estar alheio ou a ética. Ou seja: uma pessoa com comportamentos em que ela vai sempre tirar vantagem do outro.
Existe uma discrepância gigantesca entre alguém que cultiva sua individualidade com autonomia e alguém que tenta constantemente tirar vantagem do outro.
E aí eu me pergunto: por que, no mundo de hoje, ainda existe tanta confusão em torno desses dois assuntos?
Individualidade
- Foco em cuidar de si mesmo;
- Valorização dos próprios valores;
- Autoconhecimento;
- Independência;
- Autorrespeito.
Quando você entende sua individualidade, você também respeita os outros. Você enxerga cada pessoa como um indivíduo e não como um número na sociedade, além de buscar a harmonia nos ambientes.
Ao buscar a individualidade, a pessoa cultiva quem ela é, se entende para poder entender o mundo ao seu redor e entende as particularidades de si e dos outros.
Egoísmo
- Foco exclusivo nos próprios interesses;
- Usa o ego como referência para tudo;
- Busca constante de vantagem sobre os outros;
- Falta competência para lidar com a própria vida;
- Tenta anular os outros;
- Vê as pessoas como meios para obter vantagem;
- Prejudica o outro para se beneficiar.
Pessoas egoístas geralmente se escondem em grupos coletivos, ambientes perfeitos para a validação do ego.
Existe essa confusão porque ambos envolvem o “eu”. E tudo que envolve o “eu” é visto como egoísmo. Mas a busca pela individualidade é saudável quando você se torna autêntico e independente. Quando você se entende, você também entende melhor as pessoas.
O egoísta, por sua vez, sempre irá se colocar no centro do mundo. O egoísta não possui individualidade. Ele sequer se entende como indivíduo, apenas como alguém que precisa tirar vantagem dos outros. Ele não sabe que pode ter uma vida plena se entendendo e vivendo sem esses artifícios.
No mundo de hoje, na sociedade que vivemos, desde a infância as crianças são ensinadas a não serem autofocadas, mas a se destacar. E essas duas coisas são completamente diferentes.
Ser autofocado é voltar-se para si, para a própria vida, escolhas, identidade.
Se destacar é depender do olhar do outro, dos elogios, da validação externa.
Porque, quando você busca se destacar, você precisa estar cercado de bajuladores, pessoas te elogiando, te oferecendo algo. Já quando você tem autofoco, você não está pensando no que vai receber dos outros, você está pensando em quem você é.
A maioria das pessoas não sabe quem é. Basta observar um pouco as pessoas: muitos não sabem seus gostos particulares, o que não gostam, o porquê fazem o que fazem, ou qual direção querem seguir na própria vida.
Vemos parte disso refletido na alta taxa de depressão no mundo.
É claro: existem pessoas que passaram por situações extremamente dolorosas e, por isso, adoeceram. Mas a humanidade sempre viveu em contextos de violência, guerras e perdas. Hoje, mesmo em países que não estão em guerra, ainda assim o número de depressões é preocupante.
Acredito que esse número também cresce devido à falta de autoconhecimento.
Quando a pessoa não sabe quem é, o ego assume o controle.
O que é o ego e qual sua função?
Para você entender: o ego tem uma função protetora.
Ele protege a nossa ideia sobre nós mesmos. Ele age como mediador entre o que vem de fora (a realidade externa) e o interno, como traduzimos o mundo para que nossa identidade não se “quebre”.
Então, quando uma pessoa não sabe quem ela é, ela entende o mundo apenas através do que o ego já conhece: suas experiências, crenças limitadas, dores e medos.
Ela interpreta tudo com base nesse repertório e não com base em quem realmente é.
Por isso, alguém com uma mente autêntica tem dificuldade em conversar com uma pessoa egoísta: a pessoa egoísta literalmente não consegue compreender porque a realidade que o outro apresenta não existe dentro dela.
A mente dela não tem estrutura, conhecimento ou autoconhecimento suficiente para suportar aquele nível de visão.
Ela usa o ego como escudo, protegendo uma identidade frágil.
E, ao fazer isso, mantém-se estagnada.
Permanecer assim… ou crescer?
As pessoas podem escolher permanecer do jeito que estão, funcionando através do ego, limitadas, reagindo ao mundo. Ou podem escolher crescer, buscar autenticidade, desenvolvimento pessoal e autoconhecimento.
Esse crescimento pode acontecer por várias vias:
- Terapia;
- Observação do mundo e das pessoas;
- Buscar entender antes de julgar;
- Olhar para si com coragem;
- Questionar o que se é e o que se deseja ser.
Mas a verdade é: a maioria escolhe permanecer como está.
E quem busca autenticidade costuma ser minoria e, por isso, sente-se deslocada.
Pessoas autênticas experimentam uma solidão específica
Elas percebem que:
- Nem todo mundo consegue acompanhar seus pensamentos;
- Nem todo mundo está disposto a conversar profundamente;
- Nem todo mundo tem capacidade mental para uma visão mais disruptiva sobre o mundo.
Ser autêntico é saber exatamente onde você termina e onde o outro começa.
É simples, mas exige coragem.
E sim, existe um medo real das pessoas autênticas se mostrarem ao mundo. Porque bancar quem se é… traz consequências. E essas consequências muitas vezes geram desconforto: julgamento, silêncio, falta de compreensão.
Por isso, muitas pessoas autênticas se escondem.
Mas autenticidade não deixa de existir por estar quieta, ela só aguarda o momento em que alguém esteja disposto a realmente enxergar.
Relato Pessoal: Sobre me mostrar para o mundo
Desde criança, eu sempre fui autoconsciente em alguns aspectos. Eu entendia as nuances ao meu redor, percebia que as pessoas eram diferentes, que cada um tinha gostos próprios, interesses, formas singulares de existir. E, para mim, isso sempre foi fascinante. Eu gostava dessa diferença entre as pessoas porque ela me permitia enxergar os indivíduos como indivíduos, pelos seus próprios aspectos.
Só que, desde cedo, eu senti uma resistência enorme do ambiente para tentar me encaixar em padrões de pensamento. Só que eu não queria me encaixar.
Com o tempo, estudando e observando mais o mundo, percebi algo: a comunicação com as pessoas ao meu redor, principalmente jovens da minha idade, começou a ficar difícil. Eles estavam em um processo de formação de opinião, mas essa formação, para mim, culminava em algo: a construção do egoísmo.
Comecei a ver discursos sempre focados neles mesmos.
Pessoas não dispostas a aprender, nem a trocar ideias para crescer, mas dispostas apenas a discutir para alimentar o ego.
As discussões deixaram de ser sobre conhecimento e passaram a ser sobre competição.
Menos troca, mais disputa.
E foi duro perceber isso, principalmente com pessoas com quem eu tinha um carinho muito grande. Pessoas que, pela minha ingenuidade juvenil, eu colocava até num pedestal… E que depois vi o quanto eram egoístas e não queriam aprender.
Para mim, aprendizado sempre foi algo grandioso.
Sempre gostei de conversar pelas ideias, não para me sentir superior.
E, quando percebi que ao meu redor as conversas viravam guerras silenciosas de validação, comecei a abominar esse tipo de comportamento.
Só depois percebi o quanto isso impactou a minha autenticidade e, por isso, com o tempo, eu precisei me afastar. Porque ouvir discursos engessados daqueles que colocam você em caixas, destrói as nuances, simplifica quem você é, te reduz.
As pessoas tratam o mundo como preto ou branco. E, quando descobrem algo “novo”, elas param ali, não aprofundam, não buscam mais. É triste ver pessoas com potencial tão grande se tornando prisioneiras do próprio ego.
Ouvi muita coisa sobre mim nesse processo.
Ouvi que focar em mim mesma era egoísmo. Que querer me desenvolver como pessoa e profissional era egocentrismo. E, por um tempo… acreditei nisso.
Eu me confundi.
Somente após algum tempo de terapia e estudos para eu entender o tamanho dessa falácia. Porque quem me julgava assim… não sabia quem eu era. Não cultivava sua essência. E se deixava de lado para caber no ambiente.
Quem busca autenticidade precisa ter cuidado com opiniões alheias.
É necessário observar:
- Como essa pessoa se trata e trata os outros;
- Qual é o caráter dela;
- Se suas palavras vêm de bondade ou de controle.
Porque existem opiniões que parecem “boas”, carregadas de bondade e politicamente correto, mas que, no fundo, vêm carregadas de julgamento e coerção.
E algumas pessoas chegam a te colocar em situações de vexame, só para elas parecerem corretas. Esse é o comportamento egoísta.
Minha virada de chave foi essa:
Entender que uma pessoa que realmente quer fazer o bem nunca coloca outra em situação humilhante. Nunca adota tratamento passivo-agressivo. Não é associada à cultura de cancelamento na internet.
E, mesmo assim, na internet, o linchamento virtual se tornou uma prática normalizada, ironicamente em nome do “bem coletivo”.
O post de hoje foi sobre isso: a importância de buscar a individualidade para, então, alcançar autenticidade. E parar de acreditar nos estereótipos criados por pessoas egoístas.
Porque, no fim…
Quem realmente está buscando o bem começa primeiro por si. Se conhece. Se organiza. Se centra.
E só depois contribui com o mundo.
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