Eu relutei bastante sobre como começar a escrever este capítulo. Afinal, a amizade é, muitas vezes, um afeto colocado em um pedestal. Em muitos momentos, ela se torna o nosso refúgio, quando a família não nos apoia, quando sequer temos família, quando nos frustramos nos relacionamentos amorosos ou quando sentimos que ninguém nos entende. São as amizades que nos sustentam.
Mas, em determinados momentos da vida, especialmente quando começamos a mudar e a vibrar diferente de alguns amigos, essas relações acabam se deteriorando. Isso não quer dizer que não existam amizades para a vida inteira. Pelo contrário, eu mesma tenho amigos de infância com quem passei por diversas fases e que, ao longo do tempo, foram compreendendo cada etapa da minha vida.
Da mesma forma, também tive amigos que não entenderam as minhas mudanças, não respeitaram meus processos e essas amizades, naturalmente, se perderam.
Com este texto, não quero dizer que você precise acabar com suas amizades. Muito pelo contrário. A proposta aqui é justamente refletir sobre o que podemos fazer para que uma amizade não precise chegar ao ponto de ser rompida.
Muitas amizades se desgastam porque não sabemos nos posicionar. E, muitas vezes, pessoas com anos de convivência passam a acreditar que podem dizer tudo o que quiserem, sem medir limites, o que se assemelha muito à dinâmica familiar. Algumas pessoas nos conhecem desde o nascimento, viram nossas fases mais vulneráveis, e, por algum mecanismo psíquico ou emocional, concluem que podem ultrapassar limites, acreditando que tudo estará sempre bem e que estaremos ali para sempre.
Mas isso não é verdade.
Todos os seres humanos, independentemente de terem ou não autoconhecimento, possuem limites. E quando esses limites são ultrapassados, surgem sentimentos como raiva, frustração e, em alguns casos, até desprezo. Sentimentos que não são saudáveis e que não constroem relações verdadeiras.
Quero iniciar este tema trazendo alguns relatos pessoais.
Relato pessoal: Aprender a dizer não para continuar sendo eu
Eu possuo a personalidade INTJ, um perfil considerado raro entre mulheres. Por isso, ao longo da minha vida, eu me senti bastante incompreendida pelas pessoas em geral e, principalmente, por outras mulheres. Além disso, tenho TDAH, o que, somado a essa personalidade, me coloca ainda mais distante do modelo social do que se espera que seja “o jeito feminino de ser”.
Sempre fui mais racional, mais teórica, enquanto o esteriótipo feminino é sempre sobre ser gentil, e doce. Não vem ao caso esmiuçar todas essas características aqui, mas é importante que você, leitor, entenda algo: existe um código invisível, um código de conduta socialmente aceito sobre como as mulheres “precisam ser”. Acho que já mencionei isso em outros textos que eu nunca consegui e nem quis seguir esse código. Meu cérebro simplesmente nunca processou essa lógica, e eu também nunca dei muita importância a esses códigos de conduta femininos. Mesmo com muita pressão da família ao longo da vida, eu nunca me moldei a esse padrão.
Conforme fui crescendo, tive amizades, mas frequentemente sentia meus limites sendo ultrapassados.
Comentários em forma de piadas sobre o meu jeito de ser, sobre eu ser “racional demais”, aconteciam com frequência. Ainda assim, eu deixava esses limites serem rompidos, porque queria fazer parte daquele meio social, daquele grupo de amizades. Eu gostava daquelas pessoas e prezava por elas.
E esse é o ponto a que quero chegar: muitas vezes, nós toleramos desrespeitos simplesmente para pertencermos. Queremos estar em um círculo de convivência que consideramos agradável, formado por pessoas boas, legais, pessoas de bem. Mas o problema é que até pessoas de bem praticam microviolências, pequenas invalidações, pequenos ataques ao nosso jeito de ser e isso vai nos adoecendo emocionalmente.
E isso não acontece só comigo. Esse é apenas um dos meus relatos, mas é algo que ocorre com muitas pessoas, em contextos diferentes.
Quando eu era mais nova, ainda não tinha consciência da importância de estabelecer limites. Eu via que algumas pessoas sabiam fazer isso com naturalidade: colocavam limites, tinham jogo de cintura. Mas eu não sabia. Com o tempo, fui aprendendo como dizer “não” até para amigos, mesmo lidando com a vontade de não decepcionar ninguém, mesmo tendo que enfrentar o desconforto de ver a reação do outro.
Tive também amizades com pessoas extremamente críticas. E, para mim, sempre foi difícil lidar com isso. Eu nunca gostei de conflitos. Não queria entrar em disputas, desenvolver jogos de acidez ou devolver comentários na mesma moeda. Eu só queria ser agradável, manter as relações em harmonia. Por isso, acabava suportando esses microdesrespeitos.
Houve situações em que eu expressava a minha opinião e simplesmente não era ouvida. A pessoa falava muito, mas não escutava. O ápice de tudo, para mim, foi quando percebi o quanto a ausência de limites estava me afetando mentalmente: uma pessoa começou a me usar como “vilã” da própria história, atribuindo a mim comportamentos que eu nunca tive. Essa pessoa possuía uma visão distorcida do mundo, marcada por traumas, e passou a projetar em mim defeitos que não eram meus, mesmo me conhecendo há anos.
Trago esse relato para dizer algo muito importante: enquanto criança, adolescente, ou mesmo no início da vida adulta, eu não tinha culpa por não saber estabelecer limites. Isso é um aprendizado. No entanto, a partir do momento em que me tornei adulta, consciente das minhas escolhas e percebi que continuava sendo tratada de uma maneira que eu não gostava, passei a ter também responsabilidade sobre isso.
Se um episódio isolado acontece e conseguimos nos afastar, tudo bem. Mas quando permitimos que comportamentos inadequados se repitam por anos, nós acabamos sendo coniventes com a maneira como somos tratados. Isso acontece muito, especialmente com pessoas mais introvertidas.
E é aí que está a grande lição: precisamos aprender a verbalizar o nosso desconforto. Limites não afastam quem nos ama, eles apenas afastam quem nos ultrapassa.
Limites salvam relacionamentos
O mais curioso é que a gente nunca imagina que um amigo, alguém com quem confiamos segredos, medos e vulnerabilidades, possa algum dia, ultrapassar os nossos limites. Nós idealizamos as pessoas. Idealizamos nossos pais, nossa família, nossos irmãos, nosso parceiro romântico… e também idealizamos nossos amigos.
Criamos a ideia de que amizade é algo sagrado. Mas a verdade é que isso não existe, porque todas as pessoas são humanas e seres humanos são falhos. Em momentos de frustração, exaustão ou desequilíbrio emocional, as pessoas acabam descontando aquilo que sentem nos outros, muitas vezes justamente em quem está mais próximo.
Não estou dizendo que isso torna alguém essencialmente mau. Estou falando da complexidade das relações humanas. Nem todas as pessoas boas serão boas o tempo inteiro, assim como nem todas as pessoas consideradas ruins agirão de forma cruel o tempo todo. É exatamente por isso que é tão difícil separar quem é “bom” e quem é “ruim”. Existem pessoas de caráter duvidoso que praticam atos caridosos e jamais levantam suspeitas sobre sua verdadeira natureza. Da mesma forma, existem pessoas genuinamente boas que, por não saberem lidar com suas próprias emoções, reagem de forma extrema, sendo frias, ríspidas, agressivas ou se isolando em silêncio.
Há pessoas que são amorosas, cuidadosas, solidárias, mas, ao mesmo tempo, machucam quem está à sua volta com palavras ácidas. E esse é o grande dilema dos relacionamentos humanos: a falta de autoconhecimento.
A maioria das pessoas vive em um estado de desequilíbrio emocional. Em alguns momentos agem com empatia, compreensão e gentileza; em outros, ferem, não com xingamentos explícitos, mas com incompreensão, desvalidação e comentários frios e egoístas. Mesmo conhecendo a história do outro, suas dores e limites, ainda assim escolhem soltar observações ácidas. E isso é intencional, sim.
Não importa se alguém é, no fundo, uma “pessoa boa”. Quando existe um padrão de comportamento passivo-agressivo, de acidez verbal ou de negligência emocional, isso é escolha. Pode até ser um reflexo de dores internas, mas continua sendo uma forma de agressão.
E é aí que entra a nossa responsabilidade.
Nós, que buscamos autenticidade e autoconhecimento, precisamos aprender a nos defender emocionalmente. Precisamos aprender a traçar uma linha clara sobre até onde o outro pode ir. Porque, quando não fazemos isso, essas amizades não sobrevivem ao tempo. Não porque a relação tenha acabado por um abuso explícito, mas porque o desgaste silencioso vai minando o vínculo.
Uma pessoa que desrespeita limites normalmente também não se respeita. Falta-lhe amor-próprio e autorrespeito. Quem não consegue se tratar com dignidade dificilmente tratará o outro melhor.
Por isso, se queremos preservar nossas amizades, não basta amar, compreender ou relevar tudo. É essencial aprender a impor limites. Limites não afastam pessoas verdadeiras; eles, na verdade, são exatamente o que torna possível que uma amizade permaneça saudável ao longo do tempo.
Quando verbalizar não é suficiente
É triste perder uma amizade de anos porque não soubemos verbalizar aquilo de que não gostamos. Mas também existe o inverso. Às vezes, nós verbalizamos exatamente o que aceitamos e o que não aceitamos, deixamos claro nossos limites e, ainda assim, a outra pessoa escolhe ultrapassá-los.
Mesmo conhecendo você há anos, mesmo sabendo dos seus valores, da sua história, de quem você é e do que você é capaz, às vezes um amigo que foi bom acaba se tornando um mau amigo para você. Não necessariamente uma pessoa má, mas alguém que, dentro daquela relação, passou a agir de forma nociva.
Existem diversos motivos para isso. Pode ser frustração pessoal, aquele amigo não consegue lidar com as próprias emoções e reações. Pode ser inveja silenciosa da sua autenticidade, seus movimentos de crescimento ou sua fase de vida despertam sentimentos difíceis de controlar em quem não tem autoconhecimento. Pode ser comparação, ressentimento, projeção.
Para quem não desenvolveu maturidade emocional, esses sentimentos são intensos e, muitas vezes, incontroláveis. E acabam sendo despejados na relação.
Mas é importante dizer algo muito claro: não podemos carregar toda a culpa.
Se você colocou limites, se verbalizou o que te machuca, se pediu respeito mais de uma vez — “eu não concordo com isso”, “eu não aceito ser tratada dessa forma”, “por favor, não fale comigo assim” — e, ainda assim, a pessoa continua no mesmo comportamento, então não há mais nada que você possa fazer.
Não existe autoculpa que justifique as escolhas do outro.
Eu já vivi isso. E é extremamente doloroso. A perda de uma amizade nesse contexto é uma das dores mais difíceis de elaborar. Gera culpa, gera questionamento: “Será que eu não fui clara?”, “Será que eu mudei demais?”, “Será que deixei de ser quem a pessoa esperava?”. Ao mesmo tempo, nasce também a raiva por não ser compreendida, por não ter seu crescimento respeitado, por perceber que a pessoa não acompanhou suas mudanças.
Porque a verdade é: todos nós mudamos. Estamos sempre atravessando novas fases da vida. Isso não significa que nos tornamos “outra pessoa”, mas que estamos em constante transformação.
Eu passei por essa dor e me culpei por muito tempo por não saber verbalizar meus limites com mais firmeza. E é justamente por isso que escrevo esse texto.
Não permita que suas amizades se rompam porque você silenciou o que era importante para você. Não deixe que elas acabem por medo de desagradar, por medo de impor limites ou por permitir que passem por cima de você com opiniões destrutivas.
As pessoas têm o direito de discordar de você.
O que elas não têm direito é:
— de te acusar de algo que você não é;
— de atribuir atitudes que você nunca teve;
— de dizer coisas que sabem que vão te ferir.
Isso é ainda mais sério quando vem de quem se diz amigo. Alguém que te conhece tem a responsabilidade de zelar pelo vínculo, assim como você também zela pelos seus.
Se você sabe que jamais faria algo para ferir seus amigos, não aceite que eles façam isso com você. Respeito deve ser recíproco.
Esse foi o texto de hoje. Espero que ele traga luz para um tema tão pouco explorado, já que as amizades costumam ocupar um pedestal muito alto, inclusive, durante muito tempo, também ocuparam o meu.
Por enquanto é isso.
Nos vemos no próximo post sobre autenticidade!
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