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Escrevo este conteúdo como um alerta, pois noto uma alienação crescente na internet e nas redes sociais.

Apesar de esse fenômeno sempre ter existido nas relações sociais, a disseminação de conhecimento raso, que historicamente sempre gerou alienação, é atualmente amplificada intensamente pela internet.

O conteúdo de hoje, portanto, é um pouco mais denso. Falarei sobre a internet, sobre construção de narrativas e sobre como esse universo funciona, porque, no fim das contas, tudo isso está profundamente ligado à publicidade.

Muito se fala sobre a internet ser prejudicial e sobre diversos outros problemas associados a ela. Mas eu quero lembrar de algo essencial: o problema nunca foi a tecnologia. Quem utiliza a internet são os seres humanos. Somos nós que estamos nos relacionando e, por meio da internet, ampliando esses relacionamentos para uma escala global.

Então, a primeira coisa que eu quero que você pense é a seguinte: a grande problemática da internet hoje são bilhões de seres humanos se relacionando em grande escala sem saber lidar com isso. Sem saber lidar com o fato de que todos estão sendo vistos e de que tudo o que é dito na internet pode, em algum momento, ser ampliado, recortado ou distorcido.

Antigamente, sem internet, não existia a possibilidade de ter uma voz em larga escala. Também não havia como ser conhecido por tantas pessoas ou conhecer tanta gente. Nosso convívio era limitado às pessoas próximas: família, amigos, vizinhos, no máximo pessoas do bairro ou da cidade.

Hoje, isso mudou completamente. A internet permite que conheçamos pessoas sem fronteiras. E é justamente aí que surge uma das grandes dificuldades: muitas pessoas não conseguem lidar com o nível de expansão que a internet trouxe para a sua vida, e as escolas também não preparam os indivíduos para a vida conectada.

Existe ainda outro ponto importante: a quantidade de informação disponível. Há diversas pessoas e empresas disseminando conteúdos na internet, e somos constantemente expostos a dados, opiniões e discursos. Mas é fundamental entender que nem tudo o que está na internet é conhecimento. Muitas vezes, são apenas milhares de informações soltas que não vão te servir para nada.

É um fato que os maiores empresários que estão à frente e são donos de grandes empresas de tecnologia e redes sociais já declararam diversas vezes que seus filhos não têm tanto tempo de tela, nem permanecem tanto tempo online.  Bill Gates e Steve Jobs afirmaram em entrevistas que limitavam o uso de tecnologia para os filhos, justamente por entenderem o potencial impacto excessivo das telas na infância. Gates proibiu que seus filhos tivessem smartphones até os 14 anos e limitou o uso de gadgets em casa, e Jobs afirmou que sua família limitava significativamente quanto tempo as crianças usavam tecnologia em casa.

Então, se os próprios donos dessas empresas não permitem que seus filhos utilizem a internet o tempo todo, por que nós nos colocamos nessa posição?


Você escolhe o que consome ou o algoritmo escolhe por você?

Atualmente surgiu um termo que vem ganhando força recentemente, o “cronicamente online”, que é basicamente, quando a pessoa vive conectada, reagindo o tempo todo ao que aparece na tela, inteirado da trends, memes, etc. Eu não considero isso saudável para o equilíbrio mental e, principalmente, para o desenvolvimento do conhecimento e da autenticidade das pessoas.

Alguém que não consegue estipular ou controlar o tempo que passa na internet, muito provavelmente também não tem controle sobre outros aspectos da própria vida. Ela vive em um fluxo contínuo de estímulos, pulando de conteúdo em conteúdo, scrollando a tela de forma automática.

É claro que hoje quase todo mundo faz isso em algum grau. Mas o problema começa quando não existem limites claros. Quando a pessoa apenas rola a tela sem nenhum tipo de intenção ou comando.

Se você não calibra o seu algoritmo para receber conteúdos relevantes, conteúdos que realmente tenham relação com o que você busca, você passa a consumir uma sequência infinita de assuntos aleatórios. E isso contribui diretamente para a alienação.

Uma forma prática de evitar isso é utilizar mais a área de busca das redes sociais, em vez de apenas consumir o que aparece no feed. Quando você busca ativamente por temas específicos, o algoritmo entende melhor seus interesses e passa a te mostrar conteúdos mais alinhados com aquilo que você realmente quer ver.

Quanto mais você usa a busca de forma consciente, mais força você dá ao seu próprio direcionamento dentro da rede social. Isso é uma maneira de retomar o controle da experiência digital, em vez de ser controlado por ela.

Caso contrário, você continuará sendo exposto a informações desconexas, superficiais e irrelevantes e isso, aos poucos, vai alimentando um estado constante de distração e desalinhamento.

Quantas pessoas você conhece que apenas repercutem falas de influenciadores ou de políticos sem nem cogitar questionar, contra-argumentar ou exercer qualquer senso crítico sobre o que está sendo dito? Quantas conhece que não possuem repertório cultural para discutir sobre assuntos que não estejam ligados à mídia pop ou ao que virou manchete nas redes sociais?

Isso é algo muito importante de ser salientado: você não pode acreditar em notícias de 280 caracteres, como as publicadas na rede social X (antigo Twitter). Redes sociais não servem para te informar de forma profunda. Você não deveria sequer cogitar aprender algo complexo ou aprofundado apenas por meio de uma rede social.

Conhecimento exige tempo, profundidade e contexto. Ele vem de artigos longos, textos densos, leituras que te façam pensar, refletir e construir uma crítica social própria. No máximo, as redes sociais deveriam ser utilizadas como ponto de partida: para captar insights, temas ou provocações que, depois, você irá aprofundar em fontes mais consistentes.

Eu mesma produzo diversos vídeos curtos nas minhas redes sociais. Crio conteúdo sobre escrita, autenticidade e outros temas. Mas esses conteúdos são apenas uma prévia do que eu penso e estudo. Eles existem para despertar interesse e incentivar as pessoas a buscarem os conteúdos mais aprofundados que eu produzo, além de indicar outras fontes onde esse conhecimento pode ser expandido.

Eu sempre incentivo, nas minhas redes, que as pessoas leiam livros, livros técnicos, clássicos, ensaios e também artigos. Eu não aconselho ninguém a se informar por meio de notícias em redes sociais, pois são, em sua maioria, manchetes rasas, altamente enviesadas, construídas para induzir alinhamento imediato, emoção rápida e reação impulsiva.

Hoje, as redes sociais são uma das maiores ferramentas de manipulação da mídia. Se você quer realmente se informar, entender contextos e formar opinião, leia jornais. Sim, jornais.

É comum ouvir o argumento de que jornais têm viés político e isso é verdade, a mídias em sua maioria tem. Por isso mesmo, a melhor estratégia é ler jornais de diferentes vieses. Quando você compara como a mesma notícia é abordada por fontes distintas, você começa a enxergar as camadas do discurso. E, a partir disso, com senso crítico, você consegue extrair aquilo que realmente faz sentido para você.

Você pode perceber, por exemplo, que um jornal traz um conteúdo mais denso, mas ainda assim enviesado. E a única forma de se aproximar do que é mais próximo da realidade é questionando tudo: lendo muito, comparando fontes, mas sem aceitar nada de imediato como verdade absoluta.

Eu, por exemplo, leio jornais todos os dias. Mas sou seletiva quanto ao tipo de notícia que consumo. Não busco me aprofundar em conteúdos sensacionalistas, violentos ou feitos apenas para gerar comoção em massa. Prefiro notícias que ampliem meu repertório: economia, marketing, geopolítica, sociologia, pesquisas, análises estruturais. Leio também diversos artigos aqui no Substack, no Medium, entre outros sites que eu mesma busco ativamente. 

Informação não é sobre saber de tudo.

É sobre saber escolher o que realmente constrói pensamento.

Você precisa ter em mente que criticar o conhecimento que está recebendo, a informação que chega até você, é o primeiro passo para compreender melhor o mundo de hoje.

Neste momento, você pode estar lendo até este texto e questionando o que estou dizendo. E é exatamente isso que eu quero que você faça! Você deve questionar todas as nuances. Alguém que não questiona não consegue compreender no mundo atual.


Opiniões emprestadas não são pensamentos críticos

Sobre o tema deste texto, o que eu percebo é que muitas pessoas, como mencionei no post anterior, não sabem quem são. Elas estão perdidas em relação aos próprios gostos, ao que lhes faz bem, ao que não gostam. E tentam aprender isso observando os outros. Isso é normal: seres humanos são seres sociais, aprendem por espelhamento.

O problema é que hoje existe uma busca constante por esse autoconhecimento exclusivamente através da internet. E é preciso entender algo fundamental: você não vai compreender o seu mundo interno buscando respostas apenas no externo. Isso só gera alienação. A internet não tem todas as respostas para a sua vida.

O único caminho para se construir como um ser pensante é pensar com a própria cabeça, questionar o que está acontecendo ao seu redor. Vivemos em uma era de excesso de opiniões. Muitas delas vindas de pessoas muito jovens, cheias de certezas, alimentadas por validação constante. Essas pessoas acreditam que estão corretas simplesmente porque suas opiniões são reforçadas por grupos.

Mas, quando você conversa de forma mais profunda com esses indivíduos, percebe que são opiniões rasas. Construídas a partir de frases curtas, muitas vezes no formato de 280 caracteres, vistas repetidamente em redes sociais. E então, surge a crença equivocada: “se muitas pessoas estão dizendo a mesma coisa, isso deve ser verdade”.

As grandes mídias frequentemente utilizam a construção de narrativas para criar conexões emocionais com as pessoas, fazendo com que elas acreditem em verdades criadas.

Por exemplo: quando você percebe que muita gente está falando sobre algo, dizendo que aquilo é muito bom, ou, ao contrário, muito ruim, questione. Pense: de onde veio essa informação? Por que todo mundo está falando sobre isso?

Existe toda uma indústria de marketing por trás, inclusive de disseminação de informações falsas. E, na realidade em que a gente vive hoje, o que muitos chamam de “matrix”, essa matrix é na verdade, uma prisão mental. As pessoas muitas vezes não sabem o que está acontecendo de fato porque grandes empresas e governos utilizam o marketing massivo e a disseminação de informações para ludibriá-las. Além disso, é muito difícil quebrar esse ciclo.

A maioria das pessoas no país não lê. E, quando lê, consome conteúdos bastante superficiais (e quando eu digo isso, não estou dizendo para você parar de ler por entretenimento), mas você também precisa ler para adquirir conhecimento. Independentemente de você não estar mais cursando uma faculdade ou uma pós-graduação, você não pode parar de estudar só porque a formação acadêmica acabou. O estudo precisa ser constante. O conhecimento precisa ser constante.

E é nesse momento que, quando você adquire conhecimento, você não pode mais colocar toda a culpa nas mídias, nas grandes empresas e nos governos apenas. A partir daí, passa a ser uma responsabilidade sua. É você que deixa de raciocinar. É você que deixa de buscar.

Quando você tem condições de bancar seus estudos, de comprar livros, quando você tem acesso a jornais, acesso à internet, ou seja, quando você não está mais em um estado de pobreza extrema, quando tem uma vida minimamente estruturada e tempo para se dedicar, você não pode mais procurar culpados!

Hoje, vivemos em uma era da internet em que o conhecimento está amplamente disponível. Por isso, precisamos parar de culpar somente os outros e as circustâncias.

É claro que existem vários responsáveis por esse cenário, mas nós também temos a nossa parcela quando deixamos de estudar, quando temos tempo e procrastinamos, escolhemos não ler um jornal, não aprofundar, não buscar.

E, para você entender mais ou menos como isso funciona dentro da publicidade: quando eu falo do campo da publicidade, não estou falando apenas da venda de produtos, estou falando de tudo, inclusive de notícias.

Muitas vezes você acredita que algo está sendo apenas noticiado, mas existe ali um viés que incentiva consumidores a tomarem determinado tipo de atitude. Notícias também fazem parte disso.

O tempo todo, empresas utilizam a publicidade e a construção de narrativas como ferramentas poderosas para persuadir as pessoas a adotarem determinadas opiniões. Às vezes essa opinião está ligada a comprar algo ou deixar de comprar algo; outras vezes, a aderir a uma ideologia ou até a um partido político.

No fim das contas, tudo está relacionado ao consumo e à estratégia de fazer com que a grande massa tome decisões que a mídia deseja que sejam tomadas. 


E o que isso tem a ver com autenticidade? 

Porque é nesse momento que você é influenciado, que você vai perdendo a sua identidade. Quando você quer se sentir incluido nas tendências, quando gasta dinheiro que não tem para comprar um Labubu, ou um bebê Reborn (tendências de consumo de 2025).

É assim que funciona. Sempre foi assim. desde o início da publicidade. A difença é que hoje a publicidade se tornou mais sofisticada com as redes sociais.

Acreditar em tudo o que você lê na internet é escolher ser ludibriado, pois isso transforma indivíduos em pessoas alienadas. Nesse processo, você coloca o seu cérebro, um órgão extraordinário, dotado da capacidade de pensar criticamente, em modo inativo. Você escolhe seguir a massa. Escolhe não questionar.


Como a polarização, o ruído e o moralismo digital alimentam a alienação coletiva

O que vemos hoje na internet são grupos com opiniões divergentes se atacando constantemente. Cada grupo acredita estar moralmente correto e passa a atacar o outro com base em suas próprias crenças. Todos munidos de um discurso “politicamente correto”, mas completamente desconectados de contextos históricos, políticos e culturais mais amplos.

Isso gera uma confusão social enorme. Muitas dessas disputas funcionam como verdadeiras cortinas de fumaça. São alvoroços que desviam a atenção coletiva de questões realmente importantes que estão acontecendo no Brasil e no mundo.

Na política e também em cenários de guerra, essa é uma estratégia conhecida: sempre que algo estrutural acontece, outro evento surge para ocupar o debate público. A atenção da massa é desviada.

Por isso, este texto é um alerta. Vivemos em um momento histórico em que é extremamente difícil não cair em algum tipo de alienação. As pessoas que detêm poder,  que comandam estruturas políticas, econômicas e midiáticas, sabem como controlar narrativas. Fazem isso através da disseminação massiva de informações, criando confusão mental, excesso de estímulos e opiniões polarizadas.

Existem formas muito eficazes de construção de narrativa para moldar a opinião pública. E, quando um indivíduo vê milhares de pessoas repetindo a mesma ideia, torna-se difícil sair daquela bolha. Os grupos ideológicos se fecham, deixam de dialogar e passam a apenas reagir.

Então, como quebrar esse ciclo? Como desenvolver conhecimento real?

O primeiro passo é se afastar das redes sociais por um momento. Ou, ao menos, aprender a calibrá-las. Consumir apenas conteúdos que realmente agreguem. Esse turbilhão constante de informações não vai te ajudar a se tornar um ser humano mais crítico, nem a construir a pessoa que você deseja ser.

É necessário sair das redes, diminuir o ruído e começar a ler. Ler textos longos, profundos, que exigem tempo, silêncio e reflexão. Só assim você desenvolve pensamento crítico, autonomia intelectual e autenticidade.


Consciência não é informação, é filtro

Com o post de hoje, o que eu realmente quero é que você reflita sobre a construção do seu “eu”.

Se você chegou até este texto, acredito que esteja, de alguma forma, tentando construir um novo eu: mais autêntico, mais centrado, mais consciente. E, para que isso aconteça, é necessário parar de buscar conteúdos rasos como fonte principal de aprendizado e começar a procurar conhecimentos mais aprofundados.

Eu sei que isso não é simples. Existe uma dificuldade real. Muitas pessoas não nasceram em ambientes que incentivassem o contato com livros, estudos profundos ou conteúdos que estimulassem o pensamento crítico. Muitas cresceram em contextos onde a prioridade era sobreviver, e eu entendo isso, pois também vivi essas mesmas circunstâncias. Eu sei exatamente o que leva alguém à alienação.

Mas existe algo que precisamos compreender: o processo de desalienação é individual. Ele depende exclusivamente de você.

Vivemos em uma sociedade extremamente automática, mas ninguém vai apertar um botão e fazer com que você receba os conhecimentos “certos”. 

Você precisa buscar por conta própria. 

Precisa parar de acreditar em tudo o que lê, tudo o que ouve, tudo o que assiste. 

Precisa começar a questionar tudo o que consome.

E não, isso não significa sair das redes sociais ou se afastar de pessoas que você considera alienadas. Muito pelo contrário. Se você convive com essas pessoas, então compartilhe algo que aprendeu, sem egocentrismo, apenas pelo desejo genuíno de compartilhar conhecimento.

Não estou dizendo para você abandonar a internet. A internet é uma ferramenta poderosa. Hoje, temos acesso gratuito a conteúdos que, em outras épocas, seriam impensáveis. O problema não é a internet. O problema é a falta de filtro.

A maioria das pessoas não sabe filtrar o que consome e é exatamente isso que tem prejudicado o desenvolvimento pessoal de tanta gente. Muitas não percebem que têm o poder de escolher o que querem consumir, em vez de apenas aceitar o que o algoritmo entrega.

Você pode, por exemplo, usar a busca das redes sociais para procurar ativamente os temas que deseja aprender, em vez de apenas ficar no modo automático, rolando a tela. Você pode escolher os conteúdos pelos quais quer ser impactado. Isso é autonomia. Isso é consciência.

E é isso que eu sempre vou incentivar: que você questione tudo o que consome. 

Eu sou a favor do desenvolvimento individual. Sou a favor de pessoas que questionam, que aprofundam, que pensam até compreender exatamente quem são, o que buscam, o que querem viver e até o que não querem mais carregar.

Espero que tudo o que foi dito aqui tenha te trazido mais clareza.

E, se surgir qualquer dúvida ou reflexão, os comentários estão abertos.


 

Muitas pessoas têm a falsa ideia de que individualidade é a mesma coisa que egoísmo. E, muitas vezes, por serem confundidas como egoístas, elas não cultivam a própria individualidade. Têm medo de serem tratadas como pessoas egocêntricas.

E até eu mesma me confundi por anos com esses conceitos. Fui confundida por diversas pessoas e me confundi por causa dessas falácias ao longo do tempo.

Existe uma grande diferença entre essas duas questões e eu vou explicar.

Individualidade é você se reconhecer e se valorizar. É valorizar as suas características únicas. É ter autonomia, autorrespeito, autoconhecimento, entender os seus gostos e como você quer viver a sua vida.

Já o egoísmo é uma preocupação excessiva com os próprios interesses, muitas vezes prejudicando outras pessoas, buscando vantagem pessoal sem considerar o bem-estar alheio ou a ética. Ou seja: uma pessoa com comportamentos em que ela vai sempre tirar vantagem do outro.

Existe uma discrepância gigantesca entre alguém que cultiva sua individualidade com autonomia e alguém que tenta constantemente tirar vantagem do outro.

E aí eu me pergunto: por que, no mundo de hoje, ainda existe tanta confusão em torno desses dois assuntos?

Individualidade

  • Foco em cuidar de si mesmo;
  • Valorização dos próprios valores;
  • Autoconhecimento;
  • Independência;
  • Autorrespeito.

Quando você entende sua individualidade, você também respeita os outros. Você enxerga cada pessoa como um indivíduo e não como um número na sociedade, além de buscar a harmonia nos ambientes.

Ao buscar a individualidade, a pessoa cultiva quem ela é, se entende para poder entender o mundo ao seu redor e entende as particularidades de si e dos outros.

Egoísmo

  • Foco exclusivo nos próprios interesses;
  • Usa o ego como referência para tudo;
  • Busca constante de vantagem sobre os outros;
  • Falta competência para lidar com a própria vida;
  • Tenta anular os outros;
  • Vê as pessoas como meios para obter vantagem;
  • Prejudica o outro para se beneficiar.

Pessoas egoístas geralmente se escondem em grupos coletivos, ambientes perfeitos para a validação do ego.

Existe essa confusão porque ambos envolvem o “eu”. E tudo que envolve o “eu” é visto como egoísmo. Mas a busca pela individualidade é saudável quando você se torna autêntico e independente. Quando você se entende, você também entende melhor as pessoas.

O egoísta, por sua vez, sempre irá se colocar no centro do mundo. O egoísta não possui individualidade. Ele sequer se entende como indivíduo, apenas como alguém que precisa tirar vantagem dos outros. Ele não sabe que pode ter uma vida plena se entendendo e vivendo sem esses artifícios.

No mundo de hoje, na sociedade que vivemos, desde a infância as crianças são ensinadas a não serem autofocadas, mas a se destacar. E essas duas coisas são completamente diferentes.

Ser autofocado é voltar-se para si, para a própria vida, escolhas, identidade.

Se destacar é depender do olhar do outro, dos elogios, da validação externa.

Porque, quando você busca se destacar, você precisa estar cercado de bajuladores, pessoas te elogiando, te oferecendo algo. Já quando você tem autofoco, você não está pensando no que vai receber dos outros, você está pensando em quem você é.

A maioria das pessoas não sabe quem é. Basta observar um pouco as pessoas: muitos não sabem seus gostos particulares, o que não gostam, o porquê fazem o que fazem, ou qual direção querem seguir na própria vida.

Vemos parte disso refletido na alta taxa de depressão no mundo.

É claro: existem pessoas que passaram por situações extremamente dolorosas e, por isso, adoeceram. Mas a humanidade sempre viveu em contextos de violência, guerras e perdas. Hoje, mesmo em países que não estão em guerra, ainda assim o número de depressões é preocupante.

Acredito que esse número também cresce devido à falta de autoconhecimento.

Quando a pessoa não sabe quem é, o ego assume o controle.

O que é o ego e qual sua função?

Para você entender: o ego tem uma função protetora.

Ele protege a nossa ideia sobre nós mesmos. Ele age como mediador entre o que vem de fora (a realidade externa) e o interno, como traduzimos o mundo para que nossa identidade não se “quebre”.

Então, quando uma pessoa não sabe quem ela é, ela entende o mundo apenas através do que o ego já conhece: suas experiências, crenças limitadas, dores e medos.

Ela interpreta tudo com base nesse repertório e não com base em quem realmente é.

Por isso, alguém com uma mente autêntica tem dificuldade em conversar com uma pessoa egoísta: a pessoa egoísta literalmente não consegue compreender porque a realidade que o outro apresenta não existe dentro dela.

A mente dela não tem estrutura, conhecimento ou autoconhecimento suficiente para suportar aquele nível de visão.

Ela usa o ego como escudo, protegendo uma identidade frágil.

E, ao fazer isso, mantém-se estagnada.


Permanecer assim… ou crescer?

As pessoas podem escolher permanecer do jeito que estão, funcionando através do ego, limitadas, reagindo ao mundo. Ou podem escolher crescer, buscar autenticidade, desenvolvimento pessoal e autoconhecimento.

Esse crescimento pode acontecer por várias vias:

  • Terapia;
  • Observação do mundo e das pessoas;
  • Buscar entender antes de julgar;
  • Olhar para si com coragem;
  • Questionar o que se é e o que se deseja ser.

Mas a verdade é: a maioria escolhe permanecer como está.

E quem busca autenticidade costuma ser minoria e, por isso, sente-se deslocada.


Pessoas autênticas experimentam uma solidão específica

Elas percebem que:

  • Nem todo mundo consegue acompanhar seus pensamentos;
  • Nem todo mundo está disposto a conversar profundamente;
  • Nem todo mundo tem capacidade mental para uma visão mais disruptiva sobre o mundo.

Ser autêntico é saber exatamente onde você termina e onde o outro começa.

É simples, mas exige coragem.

E sim, existe um medo real das pessoas autênticas se mostrarem ao mundo. Porque bancar quem se é… traz consequências. E essas consequências muitas vezes geram desconforto: julgamento, silêncio, falta de compreensão.

Por isso, muitas pessoas autênticas se escondem.

Mas autenticidade não deixa de existir por estar quieta, ela só aguarda o momento em que alguém esteja disposto a realmente enxergar.


Relato Pessoal: Sobre me mostrar para o mundo

Desde criança, eu sempre fui autoconsciente em alguns aspectos. Eu entendia as nuances ao meu redor, percebia que as pessoas eram diferentes, que cada um tinha gostos próprios, interesses, formas singulares de existir. E, para mim, isso sempre foi fascinante. Eu gostava dessa diferença entre as pessoas porque ela me permitia enxergar os indivíduos como indivíduos, pelos seus próprios aspectos.

Só que, desde cedo, eu senti uma resistência enorme do ambiente para tentar me encaixar em padrões de pensamento. Só que eu não queria me encaixar.

Com o tempo, estudando e observando mais o mundo, percebi algo: a comunicação com as pessoas ao meu redor, principalmente jovens da minha idade, começou a ficar difícil. Eles estavam em um processo de formação de opinião, mas essa formação, para mim, culminava em algo: a construção do egoísmo.

Comecei a ver discursos sempre focados neles mesmos.

Pessoas não dispostas a aprender, nem a trocar ideias para crescer, mas dispostas apenas a discutir para alimentar o ego.

As discussões deixaram de ser sobre conhecimento e passaram a ser sobre competição.

Menos troca, mais disputa.

E foi duro perceber isso, principalmente com pessoas com quem eu tinha um carinho muito grande. Pessoas que, pela minha ingenuidade juvenil, eu colocava até num pedestal… E que depois vi o quanto eram egoístas e não queriam aprender.

Para mim, aprendizado sempre foi algo grandioso.

Sempre gostei de conversar pelas ideias, não para me sentir superior.

E, quando percebi que ao meu redor as conversas viravam guerras silenciosas de validação, comecei a abominar esse tipo de comportamento.

Só depois percebi o quanto isso impactou a minha autenticidade e, por isso, com o tempo, eu precisei me afastar. Porque ouvir discursos engessados daqueles que colocam você em caixas, destrói as nuances, simplifica quem você é, te reduz.

As pessoas tratam o mundo como preto ou branco. E, quando descobrem algo “novo”, elas param ali, não aprofundam, não buscam mais. É triste ver pessoas com potencial tão grande se tornando prisioneiras do próprio ego.

Ouvi muita coisa sobre mim nesse processo.

Ouvi que focar em mim mesma era egoísmo. Que querer me desenvolver como pessoa e profissional era egocentrismo. E, por um tempo… acreditei nisso.

Eu me confundi.

Somente após algum tempo de terapia e estudos para eu entender o tamanho dessa falácia. Porque quem me julgava assim… não sabia quem eu era. Não cultivava sua essência. E se deixava de lado para caber no ambiente.

Quem busca autenticidade precisa ter cuidado com opiniões alheias.

É necessário observar:

  • Como essa pessoa se trata e trata os outros;
  • Qual é o caráter dela;
  • Se suas palavras vêm de bondade ou de controle.

Porque existem opiniões que parecem “boas”, carregadas de bondade e politicamente correto, mas que, no fundo, vêm carregadas de julgamento e coerção.

E algumas pessoas chegam a te colocar em situações de vexame, só para elas parecerem corretas. Esse é o comportamento egoísta.

Minha virada de chave foi essa:

Entender que uma pessoa que realmente quer fazer o bem nunca coloca outra em situação humilhante. Nunca adota tratamento passivo-agressivo. Não é associada à cultura de cancelamento na internet.

E, mesmo assim, na internet, o linchamento virtual se tornou uma prática normalizada, ironicamente em nome do “bem coletivo”.

O post de hoje foi sobre isso: a importância de buscar a individualidade para, então, alcançar autenticidade. E parar de acreditar nos estereótipos criados por pessoas egoístas.

Porque, no fim…

Quem realmente está buscando o bem começa primeiro por si. Se conhece. Se organiza. Se centra.

E só depois contribui com o mundo.


 

No post anterior, abordei sobre a importância de adicionarmos limites às pessoas para que possamos manter amizades saudáveis. O tema de hoje também se conecta com esse assunto, mas sob outra perspectiva: o âmbito social e os ambientes em que estamos inseridos.

Mais adiante, em capítulos futuros, discutirei sobre o quanto o ambiente influencia diretamente a sua vida, sua mentalidade e sua autoestima. Porém, neste texto, quero me concentrar em algo específico: as convenções sociais e o quanto elas roubam a nossa autenticidade.

Quando somos crianças, somos naturalmente livres. Temos gostos próprios, diferenças, curiosidades, e tudo isso é genuinamente aceito por nós mesmos. Mas ao longo do caminho, enquanto crescemos e começamos a adquirir crenças e hábitos vindos da convivência social, passamos a nos ajustar para caber no grupo, para sermos aceitos, para coexistirmos em harmonia.

E sim, viver em harmonia é importante, sobretudo enquanto aprendemos a existir no mundo, como crianças e adolescentes. No entanto, quando chegamos à vida adulta, também é essencial reconhecer o que deixamos pelo caminho para conquistar essa harmonia.

Em diversos posts desse tema, já falei sobre autenticidade. Hoje, quero expandir esse olhar para refletirmos juntos: o quanto as convenções sociais podem minar nossa autoestima, apagar quem somos?


E o que quero dizer com: O que é socialmente aceito, na maioria das vezes, não é para você?

Eu quero dizer com essa frase, que podemos sim, nos encaixar em determinados momentos, eventos e ambientes sociais. E é importante sabermos ler os contextos, entender como se comunicar, como nos portar, e isso é ótimo para garantir harmonia ao convívio. Porém, o que não podemos é nos transformar em personagens para caber em qualquer lugar, apagando nossa individualidade como seres humanos.

Esse apagamento é, para mim, uma das maiores causas da baixa autoestima hoje.

Muitas pessoas não sabem quem são. Sentem que precisam se encaixar para serem validadas. Acreditam que só terão valor se forem parecidas com o grupo. Assim, deixam de se sentir relevantes no mundo, deixam de perceber que têm voz, porque nunca se olharam como indivíduos, apenas como parte de um coletivo.

O modelo educacional, e o modelo do mundo como um todo, sempre buscou formar “iguais”. Isso não significa que não possamos ter afinidades, gostos em comum, ou partilhar comportamentos semelhantes quando estamos em grupo. Mas é fundamental reconhecermos o que nos diferencia, porque, se não cultivarmos nossas diferenças, passamos a matar nossa autoestima aos poucos.

E autoestima não é só sobre o que pensamos de nós mesmos. Ela também está ligada à percepção do outro e ao impacto psicológico disso em nós. Por isso, precisamos aprender a equilibrar as duas coisas: compreender o mundo e, ao mesmo tempo, não nos dissolver nele.

Sim, algumas pessoas chamam esse ajuste de “máscara social”, uma forma estratégica de evitar atritos e conviver com mais leveza. Isso é natural. Mas é igualmente essencial que, ao estarmos sozinhos, saibamos quem realmente somos. Não podemos nos ajustar tanto a ponto de não nos reconhecermos mais.

O objetivo deste post é justamente esse alerta: nem tudo que é visto como uma convenção social é para você.

Vou dar um exemplo simples: imagine uma pessoa tímida. No mundo atual, já sabemos que existem personalidades diversas, introvertidas, extrovertidas e tudo entre esses extremos. Se essa pessoa entra em um ambiente de trabalho ou de convívio onde sua forma de ser não é compreendida ou respeitada, o problema não é ela, o problema é o ambiente.

Porque, muitas vezes, acreditamos que a maioria está certa apenas por ser maioria. O cérebro humano tende a usar números como prova. Mas, quando falamos de identidade, respeito e autenticidade, a maioria nem sempre está certa.

Outro exemplo importante é o das pessoas neurodivergentes. Muitas vezes, elas não se comportam de acordo com o que é socialmente esperado e isso não tem absolutamente nada a ver com falta de educação, desinteresse ou inadequação. É uma questão neural, biológica. Hoje já existe conhecimento científico suficiente para comprovar que cérebros neurodivergentes funcionam de forma diferente dos cérebros neurotípicos e, portanto, o comportamento, o ritmo, a comunicação e o raciocínio também são diferentes.

Se pessoas neurotípicas não conseguem compreender essa diferença, o problema não está na pessoa neurodivergente, mas sim na maioria que ainda insiste em interpretar o que é diferente como “errado”.

Eu falo isso com propriedade, sendo uma pessoa neurodivergente. Durante muitos anos, eu me senti inadequada, deslocada, “fora do padrão”. Sofria tentando forçar meu comportamento a caber dentro de expectativas sociais que nunca foram feitas para mim. Só quando compreendi o verdadeiro motivo por trás dos meus comportamentos — a diferença neural — comecei a perceber que: não existe nada de errado comigo. O erro estava na referência usada para me medir.

Hoje sabemos: pessoas neurodivergentes pensam diferente, possuem raciocínios diferentes e processam o mundo sob outra lógica. Portanto, é natural que não tenham a mesma visão, mentalidade ou formas de agir que pessoas neurotípicas têm.

No entanto, a maioria das pessoas neurodivergentes carrega marcas emocionais profundas. São pessoas que, ao longo da vida, foram repetidamente rejeitadas por detalhes mínimos, por sua forma de falar, de pensar, de ser, por interesses considerados “estranhos”, por diferenças que, no fundo, são apenas humanas. Carregam traumas ligados à rigidez social e à constante sensação de inadequação.

E, por isso, faço questão de alertar: não são apenas os neurodivergentes que sofrem com convenções sociais, pessoas neurotípicas também sofrem. Porque toda vez que um sistema dita como alguém “deveria ser”, todo aquele que não se encaixa sofre. A diferença é que alguns sofrem em silêncio, tentando se moldar, enquanto outros apenas cansam e se afastam.

O coletivismo, de maneira implícita, sugere que as pessoas devam ser parecidas, comportar-se de forma semelhante, pensar de maneira semelhante, existir em uma espécie de igualdade. Mas é fundamental compreender algo: essa igualdade nunca existirá. Nem em comportamento, nem em visão de mundo, nem em mentalidade. As pessoas são diferentes em inúmeros aspectos, biologicamente, neurologicamente, emocionalmente, socialmente e isso é natural. Veja que, quando menciono igualdade, não estou me referindo a aspectos econômicos ou de direitos sociais. Estou falando apenas da ideia de igualdade na personalidade.

Como mencionei anteriormente, é óbvio que, em determinados contextos sociais, precisamos ajustar o nosso comportamento ao ambiente. Isso faz parte da convivência em sociedade. Porém, existe uma linha muito tênue entre adaptação social saudável e descaracterização da própria identidade.

Quando deixamos nossa personalidade de lado, quando nunca fizemos nada além do que é socialmente aceito, quando esquecemos nossas diferenças em troca de pertencimento, pagamos um preço muito alto: a perda da autoestima.

Pode parecer algo pequeno, quase trivial, mas muitas pessoas passam por constrangimentos profundos simplesmente porque não conseguem seguir convenções sociais. Fazem comparações, vivem o pensamento: “Se todo mundo consegue ser assim, por que eu não consigo?”. E, quando esse encaixe se torna impossível, surge o sofrimento.

Esse constrangimento, quando acumulado, pode evoluir para algo muito mais grave: ansiedade social, depressão, sensação de inadequação, perda total de identidade. Porque a base emocional da autoestima está diretamente ligada à pergunta: “Quem eu sou?”

E, quando uma pessoa vive apenas performando socialmente para atender expectativas externas, uma hora a mente cobra. A conta emocional chega. É cansativo e exaustivo sustentar um personagem que não representa a sua essência.

Por falta de autoconhecimento, muitas pessoas seguem no automático. Sem perceber, constroem suas personalidades com base no que é conveniente para o grupo e não com base na própria verdade. E isso vai além do psicológico: afeta estética, escolhas, hábitos, estilo de vida.

Observe os grupos sociais: muitos têm o mesmo estilo de cabelo, o mesmo estilo de roupa, os mesmos hábitos, as mesmas opiniões. Cada grupo, cada microcultura tem um conjunto de regras implícitas sobre como você deve existir para ser aceito. E quando alguém rompe essas regras, quando uma pessoa ousa ser autêntica, não necessariamente “diferente demais”, apenas não idêntica, ela pode sofrer rejeição, constrangimento, perseguição e até linchamento social. Porque, para o coletivo, a autenticidade muitas vezes soa como uma ameaça, quase como um crime.

E quando alguém tem autenticidade muito fincada, quando a sua essência não se dilui, dificilmente um grupo a aceitará por completo. Grupos — para existir — precisam de adesão a uma ordem: comportamentos, estética, linguagem, narrativa. E quem não se adapta totalmente costuma ser excluído.

É por isso que tantas pessoas preferem se encaixar custe o que custar. Porque nada fere mais do que o sentimento de inadequação, de ser visto como alguém “fora do lugar”.


Porque antes de ser parte do mundo, você precisa ser parte de si.

O texto de hoje é um convite para parar de se colocar dentro de caixinhas, principalmente quando elas não representam verdadeiramente quem você é. Trata-se de criar pensamento crítico, reconhecer-se como indivíduo antes de tentar se encaixar em qualquer coletivo. É sobre voltar o olhar para dentro, identificar suas particularidades e fazer escolhas alinhadas com aquilo que realmente faz sentido para você.

Muito se fala em empoderamento dentro de grupos sociais, mas o empoderamento verdadeiro é simples: saber quem você é, compreender o que você gosta e ter coragem de fazer o que deseja. Não existe atitude mais poderosa do que isso. Ainda assim, muitas pessoas continuam vivendo em função das expectativas de um grupo, e não dos próprios desejos. É esse movimento que tem minado a autoestima de tanta gente: a ausência de autoconhecimento. Como saber o que queremos, se nunca paramos para nos perguntar?

Este texto tem como objetivo lançar uma luz sobre esse olhar para si: com mais carinho, mais questionamento e mais intenção. Não há problema em querer pertencer, em socializar, em ser parte de um grupo, isso é humano e é saudável. Mas abdicar totalmente de quem você é, deixando sua identidade de lado para ser aceito, é algo que cedo ou tarde cobra um preço alto.

No próximo post dsobre autenticidade, quero trazer um novo ponto de reflexão: o poder dos ambientes, e como eles moldam, transformam ou até destroem a nossa vida. Continue comigo para seguirmos nessa jornada de questionamento e construção da autenticidade.

Eu relutei bastante sobre como começar a escrever este capítulo. Afinal, a amizade é, muitas vezes, um afeto colocado em um pedestal. Em muitos momentos, ela se torna o nosso refúgio, quando a família não nos apoia, quando sequer temos família, quando nos frustramos nos relacionamentos amorosos ou quando sentimos que ninguém nos entende. São as amizades que nos sustentam.

Mas, em determinados momentos da vida, especialmente quando começamos a mudar e a vibrar diferente de alguns amigos, essas relações acabam se deteriorando. Isso não quer dizer que não existam amizades para a vida inteira. Pelo contrário, eu mesma tenho amigos de infância com quem passei por diversas fases e que, ao longo do tempo, foram compreendendo cada etapa da minha vida.

Da mesma forma, também tive amigos que não entenderam as minhas mudanças, não respeitaram meus processos e essas amizades, naturalmente, se perderam.

Com este texto, não quero dizer que você precise acabar com suas amizades. Muito pelo contrário. A proposta aqui é justamente refletir sobre o que podemos fazer para que uma amizade não precise chegar ao ponto de ser rompida.

Muitas amizades se desgastam porque não sabemos nos posicionar. E, muitas vezes, pessoas com anos de convivência passam a acreditar que podem dizer tudo o que quiserem, sem medir limites, o que se assemelha muito à dinâmica familiar. Algumas pessoas nos conhecem desde o nascimento, viram nossas fases mais vulneráveis, e, por algum mecanismo psíquico ou emocional, concluem que podem ultrapassar limites, acreditando que tudo estará sempre bem e que estaremos ali para sempre.

Mas isso não é verdade.

Todos os seres humanos, independentemente de terem ou não autoconhecimento, possuem limites. E quando esses limites são ultrapassados, surgem sentimentos como raiva, frustração e, em alguns casos, até desprezo. Sentimentos que não são saudáveis e que não constroem relações verdadeiras.

Quero iniciar este tema trazendo alguns relatos pessoais.


Relato pessoal: Aprender a dizer não para continuar sendo eu

Eu possuo a personalidade INTJ, um perfil considerado raro entre mulheres. Por isso, ao longo da minha vida, eu me senti bastante incompreendida pelas pessoas em geral e, principalmente, por outras mulheres. Além disso, tenho TDAH, o que, somado a essa personalidade, me coloca ainda mais distante do modelo social do que se espera que seja “o jeito feminino de ser”.

Sempre fui mais racional, mais teórica, enquanto o esteriótipo feminino é sempre sobre ser gentil, e doce. Não vem ao caso esmiuçar todas essas características aqui, mas é importante que você, leitor, entenda algo: existe um código invisível, um código de conduta socialmente aceito sobre como as mulheres “precisam ser”. Acho que já mencionei isso em outros textos que eu nunca consegui e nem quis seguir esse código. Meu cérebro simplesmente nunca processou essa lógica, e eu também nunca dei muita importância a esses códigos de conduta femininos. Mesmo com muita pressão da família ao longo da vida, eu nunca me moldei a esse padrão.

Conforme fui crescendo, tive amizades, mas frequentemente sentia meus limites sendo ultrapassados.

Comentários em forma de piadas sobre o meu jeito de ser, sobre eu ser “racional demais”, aconteciam com frequência. Ainda assim, eu deixava esses limites serem rompidos, porque queria fazer parte daquele meio social, daquele grupo de amizades. Eu gostava daquelas pessoas e prezava por elas.

E esse é o ponto a que quero chegar: muitas vezes, nós toleramos desrespeitos simplesmente para pertencermos. Queremos estar em um círculo de convivência que consideramos agradável, formado por pessoas boas, legais, pessoas de bem. Mas o problema é que até pessoas de bem praticam microviolências, pequenas invalidações, pequenos ataques ao nosso jeito de ser e isso vai nos adoecendo emocionalmente.

E isso não acontece só comigo. Esse é apenas um dos meus relatos, mas é algo que ocorre com muitas pessoas, em contextos diferentes.

Quando eu era mais nova, ainda não tinha consciência da importância de estabelecer limites. Eu via que algumas pessoas sabiam fazer isso com naturalidade: colocavam limites, tinham jogo de cintura. Mas eu não sabia. Com o tempo, fui aprendendo como dizer “não” até para amigos, mesmo lidando com a vontade de não decepcionar ninguém, mesmo tendo que enfrentar o desconforto de ver a reação do outro.

Tive também amizades com pessoas extremamente críticas. E, para mim, sempre foi difícil lidar com isso. Eu nunca gostei de conflitos. Não queria entrar em disputas, desenvolver jogos de acidez ou devolver comentários na mesma moeda. Eu só queria ser agradável, manter as relações em harmonia. Por isso, acabava suportando esses microdesrespeitos.

Houve situações em que eu expressava a minha opinião e simplesmente não era ouvida. A pessoa falava muito, mas não escutava. O ápice de tudo, para mim, foi quando percebi o quanto a ausência de limites estava me afetando mentalmente: uma pessoa começou a me usar como “vilã” da própria história, atribuindo a mim comportamentos que eu nunca tive. Essa pessoa possuía uma visão distorcida do mundo, marcada por traumas, e passou a projetar em mim defeitos que não eram meus,  mesmo me conhecendo há anos.

Trago esse relato para dizer algo muito importante: enquanto criança, adolescente, ou mesmo no início da vida adulta, eu não tinha culpa por não saber estabelecer limites. Isso é um aprendizado. No entanto, a partir do momento em que me tornei adulta, consciente das minhas escolhas e percebi que continuava sendo tratada de uma maneira que eu não gostava, passei a ter também responsabilidade sobre isso.

Se um episódio isolado acontece e conseguimos nos afastar, tudo bem. Mas quando permitimos que comportamentos inadequados se repitam por anos, nós acabamos sendo coniventes com a maneira como somos tratados. Isso acontece muito, especialmente com pessoas mais introvertidas.

E é aí que está a grande lição: precisamos aprender a verbalizar o nosso desconforto. Limites não afastam quem nos ama, eles apenas afastam quem nos ultrapassa.


Limites salvam relacionamentos

O mais curioso é que a gente nunca imagina que um amigo, alguém com quem confiamos segredos, medos e vulnerabilidades, possa algum dia, ultrapassar os nossos limites. Nós idealizamos as pessoas. Idealizamos nossos pais, nossa família, nossos irmãos, nosso parceiro romântico… e também idealizamos nossos amigos.

Criamos a ideia de que amizade é algo sagrado. Mas a verdade é que isso não existe, porque todas as pessoas são humanas e seres humanos são falhos. Em momentos de frustração, exaustão ou desequilíbrio emocional, as pessoas acabam descontando aquilo que sentem nos outros, muitas vezes justamente em quem está mais próximo.

Não estou dizendo que isso torna alguém essencialmente mau. Estou falando da complexidade das relações humanas. Nem todas as pessoas boas serão boas o tempo inteiro, assim como nem todas as pessoas consideradas ruins agirão de forma cruel o tempo todo. É exatamente por isso que é tão difícil separar quem é “bom” e quem é “ruim”. Existem pessoas de caráter duvidoso que praticam atos caridosos e jamais levantam suspeitas sobre sua verdadeira natureza. Da mesma forma, existem pessoas genuinamente boas que, por não saberem lidar com suas próprias emoções, reagem de forma extrema, sendo frias, ríspidas, agressivas ou se isolando em silêncio.

Há pessoas que são amorosas, cuidadosas, solidárias, mas, ao mesmo tempo, machucam quem está à sua volta com palavras ácidas. E esse é o grande dilema dos relacionamentos humanos: a falta de autoconhecimento.

A maioria das pessoas vive em um estado de desequilíbrio emocional. Em alguns momentos agem com empatia, compreensão e gentileza; em outros, ferem, não com xingamentos explícitos, mas com incompreensão, desvalidação e comentários frios e egoístas. Mesmo conhecendo a história do outro, suas dores e limites, ainda assim escolhem soltar observações ácidas. E isso é intencional, sim.

Não importa se alguém é, no fundo, uma “pessoa boa”. Quando existe um padrão de comportamento passivo-agressivo, de acidez verbal ou de negligência emocional, isso é escolha. Pode até ser um reflexo de dores internas, mas continua sendo uma forma de agressão.

E é aí que entra a nossa responsabilidade.

Nós, que buscamos autenticidade e autoconhecimento, precisamos aprender a nos defender emocionalmente. Precisamos aprender a traçar uma linha clara sobre até onde o outro pode ir. Porque, quando não fazemos isso, essas amizades não sobrevivem ao tempo. Não porque a relação tenha acabado por um abuso explícito, mas porque o desgaste silencioso vai minando o vínculo.

Uma pessoa que desrespeita limites normalmente também não se respeita. Falta-lhe amor-próprio e autorrespeito. Quem não consegue se tratar com dignidade dificilmente tratará o outro melhor.

Por isso, se queremos preservar nossas amizades, não basta amar, compreender ou relevar tudo. É essencial aprender a impor limites. Limites não afastam pessoas verdadeiras; eles, na verdade, são exatamente o que torna possível que uma amizade permaneça saudável ao longo do tempo.


Quando verbalizar não é suficiente

É triste perder uma amizade de anos porque não soubemos verbalizar aquilo de que não gostamos. Mas também existe o inverso. Às vezes, nós verbalizamos exatamente o que aceitamos e o que não aceitamos, deixamos claro nossos limites e, ainda assim, a outra pessoa escolhe ultrapassá-los.

Mesmo conhecendo você há anos, mesmo sabendo dos seus valores, da sua história, de quem você é e do que você é capaz, às vezes um amigo que foi bom acaba se tornando um mau amigo para você. Não necessariamente uma pessoa má, mas alguém que, dentro daquela relação, passou a agir de forma nociva.

Existem diversos motivos para isso. Pode ser frustração pessoal, aquele amigo não consegue lidar com as próprias emoções e reações. Pode ser inveja silenciosa da sua autenticidade, seus movimentos de crescimento ou sua fase de vida despertam sentimentos difíceis de controlar em quem não tem autoconhecimento. Pode ser comparação, ressentimento, projeção. 

Para quem não desenvolveu maturidade emocional, esses sentimentos são intensos e, muitas vezes, incontroláveis. E acabam sendo despejados na relação.

Mas é importante dizer algo muito claro: não podemos carregar toda a culpa.

Se você colocou limites, se verbalizou o que te machuca, se pediu respeito mais de uma vez — “eu não concordo com isso”, “eu não aceito ser tratada dessa forma”, “por favor, não fale comigo assim” — e, ainda assim, a pessoa continua no mesmo comportamento, então não há mais nada que você possa fazer.

Não existe autoculpa que justifique as escolhas do outro.

Eu já vivi isso. E é extremamente doloroso. A perda de uma amizade nesse contexto é uma das dores mais difíceis de elaborar. Gera culpa, gera questionamento: “Será que eu não fui clara?”, “Será que eu mudei demais?”, “Será que deixei de ser quem a pessoa esperava?”. Ao mesmo tempo, nasce também a raiva por não ser compreendida, por não ter seu crescimento respeitado, por perceber que a pessoa não acompanhou suas mudanças.

Porque a verdade é: todos nós mudamos. Estamos sempre atravessando novas fases da vida. Isso não significa que nos tornamos “outra pessoa”, mas que estamos em constante transformação.

Eu passei por essa dor e me culpei por muito tempo por não saber verbalizar meus limites com mais firmeza. E é justamente por isso que escrevo esse texto.

Não permita que suas amizades se rompam porque você silenciou o que era importante para você. Não deixe que elas acabem por medo de desagradar, por medo de impor limites ou por permitir que passem por cima de você com opiniões destrutivas.

As pessoas têm o direito de discordar de você.
O que elas não têm direito é:

— de te acusar de algo que você não é;
— de atribuir atitudes que você nunca teve;
— de dizer coisas que sabem que vão te ferir.

Isso é ainda mais sério quando vem de quem se diz amigo. Alguém que te conhece tem a responsabilidade de zelar pelo vínculo,  assim como você também zela pelos seus.

Se você sabe que jamais faria algo para ferir seus amigos, não aceite que eles façam isso com você. Respeito deve ser recíproco.

Esse foi o texto de hoje. Espero que ele traga luz para um tema tão pouco explorado, já que as amizades costumam ocupar um pedestal muito alto, inclusive, durante muito tempo, também ocuparam o meu.

Por enquanto é isso.

Nos vemos no próximo post sobre autenticidade!


Desde a infância, dependendo de onde você nasce, somos ensinados culturalmente a aceitar a mediocridade.

Quero trazer isso para o aspecto de crescer em um ambiente de escassez , que é o que posso trazer da minha própria experiência.

A mediocridade é uma cultura. Ela se torna quase um estilo de vida.

Obviamente, ela está intrinsecamente ligada à educação das pessoas que vivem em contextos de escassez, muito associada à pobreza. Essa educação é transmitida de pais para filhos sem que percebam, não há intenção de ensinar a escassez ou a mediocridade, mas isso acaba acontecendo automaticamente, como parte da herança cultural.

Gostaria de abordar, dois conceitos:

O primeiro é a mediocridade emocional, que tem a ver com aceitar pouco — aceitar receber o mínimo e não acreditar que se merece mais. É quando você se acomoda diante do que tem, como se não houvesse a possibilidade de conquistar algo melhor. Esse é o primeiro conceito, e vamos tratá-lo separadamente.

O segundo é a mediocridade intelectual, que acontece quando a pessoa acredita que não precisa adquirir mais conhecimento. Para ela, a ignorância está confortável o suficiente. Não há curiosidade, nem vontade de aprender algo novo. Vive-se no automático, simplesmente existindo.

Agora, eu quero me aprofundar nesses dois conceitos para que você entenda melhor o que quero dizer com “mediocridade”.

1. A mediocridade emocional

Essa mediocridade tem a ver com o post que escrevi sobre o não merecimento. É justamente o fato de não questionar o próprio valor, de achar que não merece tanto, que está tudo bem aceitar pouco, que “você não é tudo isso”.

Dentro de uma cultura de escassez, existe uma grande falácia: a de que uma pessoa que tem autorrespeito e entende o seu valor é egocêntrica. Quando alguém começa a se valorizar, a se posicionar e a colocar limites, logo é taxado de egoísta.

Esse tipo de conduta social faz com que a pessoa se oprima, se reprima, se restrinja e passe a acreditar que realmente não merece tanto assim. Afinal, se todos dizem que almejar mais é sinal de egoísmo, então o “certo” seria se contentar com pouco.

E é aí que nasce a mediocridade emocional: quando a pessoa aceita ser tratada de qualquer jeito, se acostuma com o mínimo e até se submete a humilhações. Vive de forma passiva — não reage quando é agredida verbalmente, sofre assédio moral, é traída por amigos, familiares ou parceiros — porque acredita que não merece mais do que aquilo.

Existe uma série de consequências quando alguém carrega essa mediocridade emocional. A pessoa ainda não compreendeu que tem valor, que é valiosa. E, por isso, se acostuma com pouco. Às vezes, até se sente mal em cobrar algo do mundo ou em se posicionar de maneira firme, com medo de parecer arrogante.

Essa mediocridade emocional é uma barreira poderosa, e desconstruí-la leva tempo. Leva tempo para alguém que cresceu com a mentalidade de escassez entender que é valioso, que merece mais.

Eu gosto de dizer que todas as pessoas são valiosas, mas o que realmente faz diferença é como elas se mostram para o mundo.

Quando você não se sente merecedora, quando ainda vive sob a influência dessa mediocridade emocional, as pessoas tendem a enxergá-la como alguém frágil, uma “pária” social — alguém que pode ser pisado. E não, isso não é justo. Mas é real.

Por isso, precisamos aprender a nos defender emocionalmente, a colocar limites e a reconhecer o próprio valor. Só assim conseguimos impedir que o mundo e as pessoas determinem quanto valemos.

2. A mediocridade intelectual

A mediocridade intelectual é, basicamente, quando a pessoa não busca evolução. Ela permanece vivendo no automático, imersa em uma ignorância confortável, sem curiosidade por aprendizado. Vive uma vida anestesiante, compensando o excesso de trabalho com diversões superficiais no fim de semana ou se satisfazendo com aprendizados rasos.

E hoje, com a internet, essa mediocridade é ainda mais gritante. A rede nos dá acesso a um universo de conhecimento e cultura como nunca antes. Podemos assistir palestras, aulas, documentários, ler sobre qualquer assunto em poucos segundos. Algo que, antigamente, demandava tempo, livros e acesso a acervos limitados.

Mesmo assim, muitas pessoas ignoram essa abundância de conhecimento. Eu entendo que jornadas de trabalho exaustivas, principalmente para quem vem de uma classe que precisa garantir o pão de cada dia, podem deixar a pessoa em um estado de letargia. Mas isso não significa que a vida precise se resumir a trabalhar e buscar distrações aos fins de semana.

Existe uma cultura de desvalorização do intelectual e do clássico, e isso se tornou algo preocupante. Hoje, é comum ver pessoas sem interesse por arte, filosofia, literatura, ou até mesmo por aprofundar o conhecimento na área em que atuam. As conversas se tornaram mais rasas, pautadas no cotidiano, nas polêmicas da mídia e em opiniões de terceiros.

Grande parte do que se aprende vem de vídeos curtos, manchetes ou pequenos trechos lidos nas redes sociais. As pessoas formam opiniões com base em fragmentos e raramente se interessam por compreender a fundo o que estão opinando.

Claro que nem todos têm tempo para se aprofundar em vários assuntos, e isso é compreensível. Mas o que critico é a quantidade de opiniões sem fundamento, baseadas apenas no senso comum ou em informações superficiais.

Essa mediocridade intelectual nasce justamente do conformismo do senso comum — dessa zona de conforto mental que rejeita o aprofundamento e o pensamento crítico. Refletir exige esforço, e esforço exige abrir mão de uma parte do tempo de lazer. É por isso que pensar criticamente se tornou quase um ato de resistência: porque exige sacrifício.

Mas é esse sacrifício que constrói repertório, bagagem e clareza. E é o que diferencia quem apenas existe de quem realmente entende o mundo e o próprio lugar dentro dele.


Como aprendemos a nos tratar

Eu quero um pouco sobre como somos ensinados a nos tratar desde a infância, principalmente quando crescemos em ambientes de escassez.

Geralmente, é possível perceber que muitas pessoas têm problemas sérios de autoestima — inclusive, já comentei sobre isso em posts anteriores. Grande parte das pessoas foram rejeitadas na infância, maltratadas, ou simplesmente não tiveram os seus sentimentos validados.

Pais, familiares ou cuidadores, muitas vezes, não souberam acolher aquela criança, não entenderam suas emoções e, com isso, transmitiram a ela a ideia de que não era suficiente.

Quando essa criança cresce, há dois caminhos mais comuns: ou ela se torna um adulto frustrado e depressivo, ou se torna alguém que se trata da pior forma possível, se coloca nas piores situações, se autossabota, aceita pouco, se anula.

Obviamente, não é culpa de ninguém ter sido criado dessa maneira. Mas, a partir do momento em que você se torna adulto, com 25, 30 anos, ou mais, e ainda repete comportamentos que demonstram falta de autocuidado, é sinal de que você está errando consigo mesmo.

Ao longo dos anos, percebi que muitas pessoas são tão frustradas que não conseguem lidar bem quando encontram alguém que cresceu com amor-próprio. E eu entendo que deve ser difícil. Não é à toa que, muitas vezes, surge a desconfiança: “Ah, esse tal de amor-próprio nem existe.”

Essas pessoas olham para quem se valoriza e rapidamente as chamam de egocêntricas, porque não aprenderam o que é amor-próprio de verdade. Elas de fato, têm uma percepção deturpada da realidade, por terem sido criadas em ambientes onde foram desvalorizadas e não conseguem entender como funciona o autoamor.

E tudo bem se você foi criado dessa maneira. Tudo bem se você ainda age assim.

Mas você pode — e deve — parar por aí.

Isso não é o ideal de vida que você merece. Você merece se entender, se cuidar, se tratar com respeito e compreender que merece o melhor.

As pessoas que cresceram nesse tipo de ambiente aprenderam a se tratar da pior forma possível, ou, talvez, não da pior, mas de uma forma medíocre. Mínima.

E, sinceramente, o mínimo não é suficiente.

Todo ser humano precisa de autoconhecimento. Precisa entender quem é, se tornar verdadeiramente autêntico. O autoconhecimento dói, mas é essa dor que garante o amor-próprio.

Porque o modo como nos tratamos — acreditando que nunca vamos conseguir o que queremos, que tudo é difícil, que o outro tem mais sorte, mais oportunidades — é justamente o que nos afunda.

Esses pensamentos frustrantes não são neutros. Eles corroem.

Por isso, amar-se genuinamente é um processo de descascar as camadas grossas que aprendemos na infância: as camadas do não merecimento, da escassez, do medo da perda.

E quando nos despimos disso tudo, voltamos para nós mesmos e enxergamos, finalmente, o nosso valor. E é aí que tudo muda.

Porque quando passamos a nos ver de verdade — com compaixão, com respeito — também passamos a enxergar o outro com mais clareza.

Ter clareza sobre o que estamos fazendo conosco, sobre como estamos nos tratando mal, é extremamente necessário. Porque, às vezes, você até consegue ver o seu próprio potencial. Você enxerga o seu brilho, reconhece quem é, sente que pode mais.

Mas ainda assim, existe algo que te puxa para baixo.

E isso acontece porque o mundo, além daquilo que aprendemos com nossas famílias, também está cheio de pessoas frustradas. E essas pessoas, muitas vezes, despejam suas frustrações em todos ao redor.

A grande massa vive presa a crenças limitantes:

“isso é difícil de conseguir”,

“esse sonho é grande demais”,

“não se arrisque tanto”,

“melhor ficar onde está”.

Vou te dar alguns exemplos simples e muito comuns:

  • Você quer sair da casa ou do bairro onde mora, e logo alguém diz: “Cuidado, pode acabar indo para um lugar pior.”
  • Quando você quer comprar uma casa e fazer um financiamento? “cuidado para não se endividar.”
  • Quer realizar o sonho de viajar e conhecer outro país? “Ah, esse lugar é perigoso, pode acontecer alguma coisa ruim.”
  • Ou ainda, quando você quer melhorar sua qualidade de vida, trabalhar mais, ganhar mais, alguém fala: “Dinheiro não traz felicidade, cuidado para não se tornar ganancioso.”

Esses são exemplos cotidianos, sonhos que não são impossíveis, que milhares de pessoas já realizaram. Mas, quando alguém com mentalidade de escassez ou frustração ouve isso, ela tende a invalidar o sonho do outro. Porque invalidar o sonho de alguém não é só uma opinião, é destruir, pouco a pouco, a autenticidade de uma pessoa.

E tudo bem se, em algum momento, a gente se frustra. Isso é humano.

Mas precisamos ter muito cuidado com os paradigmas que colocamos sobre os outros.

Cada pessoa tem a sua história, o seu tempo e o seu caminho.

E cada pessoa precisa — e merece — acreditar em si mesma.

Quando você coloca uma barreira em si, ainda dá tempo de se reconstruir. Mas quando você coloca essa barreira no outro, isso pode ser ainda pior. Porque, além de se limitar, você passa a limitar quem está tentando crescer.


Como a mediocridade se tornou socialmente aceitável

É engraçado como hoje é normalizado o fato de alguém gastar bastante tempo no celular, nas redes sociais ou até serem pessoas que causam intrigas e conflitos por pouca coisa, nada que seja de fato relevante. Ninguém mais está em busca de desenvolver as virtudes.

No mundo de hoje, tudo que é verdadeiramente bom é ignorado. E tudo que não engrandece, as coisas mais rasas, são trazidas como algo de valor. Existe uma inversão de valores muito grande, e as pessoas se perderam um pouco e não entendem o que, de fato, é valioso. Existe até uma crítica as pessoas “boazinhas”.

Vou explicar o meu ponto de vista sobre esse fenômeno.

Algumas pessoas se acostumam tanto com a mediocridade que passam a não querer que as outras se sobressaiam. E isso acontece porque elas mesmas não querem mudar. Ser uma pessoa melhor, evoluir intelectualmente, espiritualmente e emocionalmente exige esforço, sacrifício e desconforto. Esse processo tem um custo.

E é justamente por isso que muita gente não quer que o outro ultrapasse essa barreira.

Quando alguém dentro de um grupo de amigos, por exemplo, se eleva, busca mais conhecimento, desenvolve inteligência emocional, amadurece, essa pessoa, sem querer, expõe a mediocridade dos outros.

E isso incomoda.

Não necessariamente por maldade, mas porque o crescimento de um revela o estancamento dos demais. É um espelho difícil de encarar.

Por isso, quando alguém começa a se destacar, sempre há uma força que tenta puxá-la de volta. É quase um fenômeno natural: toda vez que você tenta aprender algo novo, que foge da zona do “comum”, vai sentir a resistência — a força invisível da mentalidade de massa tentando te manter no mesmo lugar.

Essa mentalidade automática, de “pão e circo”, faz com que as pessoas se contentem com pouco: festas, distrações, prazeres imediatos, e deixem de buscar o que realmente traz crescimento, que é o conhecimento e a consciência de si.

É difícil querer crescer, pois toda virtude tem um custo.

  • Para desenvolver a prudência, é preciso pagar o preço da cautela, da reflexão e da análise antes de agir.
  • Para conquistar a temperança, é necessário aprender o autodomínio, moderar os prazeres e os desejos.
  • E para alcançar a resiliência, é inevitável negar a preguiça e enfrentar o desconforto das dificuldades. Porque a resiliência não é a ausência de problemas. A verdadeira resiliência é a capacidade de continuar, mesmo quando tudo parece contrário, mesmo quando a vida insiste em te testar.

Então, toda vez que você quiser subir de nível, sair da estagnação e melhorar os aspectos da sua vida, você vai se deparar com a sua própria resistência dos outros e a dos outros.

Mas nós estamos aqui para evoluir. Ser uma pessoa medíocre, viver no automático, não é justo conosco.

Sempre que você estiver nessa jornada de autoconhecimento, buscando crescer, as pessoas vão te tratar de forma diferente. Algumas podem te isolar, te ironizar, simplesmente porque você está se sobressaindo. E isso acontece porque a autenticidade brilha, ela se destaca.

Autenticidade não é sobre estética, nem sobre o que você tem, é sobre quem você é.

E nada abala mais o ego de um ser humano do que ver alguém sendo autêntico, quando ele mesmo não é. Isso dói, incomoda.

Se você tem pessoas na sua vida que te isolam ou te tratam mal por você estar sendo você — e aqui eu falo de ser você na sua melhor versão, buscando virtudes, e não normalizando erros — entenda que essas pessoas não são para você.

E sim, isso é duro. Às vezes, são pessoas de quem gostamos muito. Mas é preciso se afastar. Não significa odiar essas pessoas, mas compreender que você não pode cultivar a mediocridade dentro de si, especialmente quando está em um processo de autoconhecimento e da busca por autenticidade.

O meio em que vivemos molda o nosso caráter. Se você anda com pessoas medíocres, vai acabar se tornando uma também — frustrada, negativa, incapaz de ver o lado bom da vida.

E não estou falando de ser alienado e ver tudo como positivo, mas de enxergar a vida de forma realista: entender que há dias bons, dias ruins e dias neutros. E o verdadeiro sinal de evolução é saber atravessar todos eles com equilíbrio.

Os meios sempre me assustaram, porque eu sempre soube que, se eu estiver no meio errado, as pessoas daquele meio vão me influenciar. Isso porque, todos nós somos moldáveis.

Se você consome coisas ruins, inevitavelmente vai pensar coisas ruins. Se passa o dia assistindo filmes de terror, não tem como não carregar pensamentos negativos.

Da mesma forma, se você se cerca de pessoas que falam coisas boas, que compartilham conhecimento, que te inspiram a crescer, inevitavelmente você vai evoluir. Os meios são uma ferramenta e você precisa aprender a usá-los a seu favor.

As pessoas têm o poder de nos alavancar ou nos derrubar e o seu objetivo é construir sua mentalidade, fortalecer sua autoestima e cultivar sua autenticidade, você precisa estar diariamente perto de pessoas que também buscam o mesmo.

Porque, a partir do momento em que você dá ouvidos a quem pensa o contrário, é natural que comece a acreditar nessas vozes e desacreditar de si.


Relato pessoal: sobre limites e autenticidade

Durante muito tempo, eu não entendia por que algumas pessoas ultrapassavam os meus limites com tanta naturalidade. Comentários velados, críticas disfarçadas, ironias, tudo isso me acompanhou desde a infância. E, por muito tempo, eu achei que o problema era comigo.

Cresci em um ambiente simples, mas com uma base emocional sólida. Tive a sorte de ser criada por uma figura materna muito forte, minha avó. Foi ela quem me ensinou o valor da autenticidade e me salvou de perder minha autoestima. Só que, ao meu redor, nem todo mundo tinha recebido esse mesmo tipo de amor e validação.

As pessoas que foram tratadas com dureza, muitas vezes, reproduzem essa dureza. E, por não saberem o que é cuidado genuíno, acabam tratando os outros com ironia, competição ou desprezo. Eu demorei para entender isso.

Por muito tempo, deixei que os outros ultrapassassem meus limites, e o pior: eu nem sabia que eram limites. Até que um dia entendi que aquilo que me incomodava, que me fazia sentir pequena, era justamente o que eu não precisava mais permitir.

Hoje eu sei: ter limites claros é um ato de amor próprio. Não é sobre ser frio, distante ou orgulhoso. É sobre saber o que você merece e não aceitar menos do que isso.

Porque quem se conhece, quem se cuida e quem está em processo de evolução, não cabe mais em relações medíocres, aquelas onde a ironia é normalizada, onde o amor vira disputa, e o respeito é raro.

Relacionamentos saudáveis não te diminuem, não te colocam para baixo e nem te fazem duvidar de quem você é.

Então, se tem uma mensagem que eu quero deixar hoje, é essa: Não aceite menos do que o respeito e a verdade que você oferece.

O autoconhecimento não é um caminho fácil, mas é o único capaz de nos libertar das repetições e das mediocridades emocionais. Nunca é tarde para se conhecer, se proteger e se reconstruir.

E, por último, quero dizer: diga “não” quando for necessário.

No próximo post dessa série sobre autencidade, irei abordar sobre como estabelecer limites claros nas amizades, mantendo-as saudáveis.

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No post de hoje, quero continuar nossa reflexão sobre controle e autenticidade. Anteriormente, falei sobre a ilusão do controle que podemos ter sobre nossa vida e a vida das outras pessoas, e sobre a importância de quebrar o ego para abrir espaço à autenticidade.

Hoje, o tema é aceitar o mundo como ele é. Isso significa acolher tanto suas perfeições quanto suas imperfeições.

Essa reflexão também tem muito a ver com frustrações. Quando nascemos e crescemos neste mundo, somos educados de uma maneira que nos torna bastante críticos, e até rebeldes, em diversos aspectos. Isso não é um problema por si só. O problema surge quando acreditamos que nosso “eu” é superior a ponto de achar que podemos submeter tudo e todos à nossa vontade. E isso, na prática, é impossível.

Essa expectativa de controle é, inclusive, uma das principais causas das frustrações que sentimos. Afinal, vivemos em um mundo com uma enorme pluralidade de culturas, valores e jeitos de ser. Por que, então, insistimos na ideia de que podemos mudar o que já existe?

Aceitar o mundo como ele é não significa conformismo. Significa reconhecer a realidade, abraçar suas nuances e, a partir daí, escolher nossas ações de maneira mais consciente e autêntica.


Relato pessoal: aprender a mudar de lugar quando não cabemos mais

Eu nunca fui conformista. Sempre fui rebelde. O mundo para mim era cheio de regras que considerava inúteis, mas, ao mesmo tempo, também não queria moldá-lo, porque sabia que isso seria impossível. Desde cedo, fui ensinada pelas negativas da vida. Então, a única coisa que eu podia controlar era o que dizia respeito a mim mesma.

Uma coisa que sempre me deixava inconformada era o modo como a criação feminina acontecia. Quando criança, eu pensava: por que nós, meninas, não podíamos correr e brincar como os nossos primos? Por que eu precisava usar brincos, mesmo quando doía e inflamava as minhas orelhas? Por que eu tinha que ficar quieta e não podia ser mais agitada ou brincar à vontade?

A criação feminina foi muito cruel para mim, porque, como criança, eu achava que poderia fazer tudo. Esse é apenas um dos aspectos que muitas crianças, provavelmente todas, sofreram. Na infância, somos submetidas a posições sociais impostas e muitas vezes nos sentimos moldadas por elas.

Já na vida adulta, mesmo sendo rebelde e não me conformando com a realidade, isso me trazia mais desafios. Algumas coisas eu aceitava; outras, não. Por exemplo, podia me conformar com certos comportamentos de pessoas, mas não com processos de trabalho ou regras de um emprego que não faziam sentido para mim. E, mesmo assim, muitas vezes eu continuava ali, dentro daquela estrutura.

Até que um dia percebi: a única coisa que eu realmente podia fazer era me mudar de lugar. Se eu não me sentia bem em determinadas amizades, empregos ou ambientes, como poderia mudar toda uma estrutura ou o modo de ser de outra pessoa? Nem tudo é sobre nós e nem tudo está sob nosso controle.

Às vezes, precisamos começar em empregos ou situações que não fazem sentido para a vida que queremos ter. Mas isso não significa abdicar da nossa identidade. Pelo contrário: muitas vezes, é um passo necessário para a nossa sobrevivência, enquanto criamos estratégias para o próximo passo.

A aceitação, então, é uma habilidade que precisa ser treinada. Não se trata de se moldar ao ambiente e perder a autenticidade, mas de desenvolver jogo de cintura para atravessar certas situações sem renunciar a quem você é.


Aceitar o mundo não é conformismo

Diante das minhas observações sobre o mundo, tenho visto muitas pessoas inconformadas. E eu entendo: de modo geral, o inconformismo vem de problemas sociais reais. É um inconformismo justo, pois muitas vezes essas pessoas simplesmente não aceitam a realidade que lhes foi imposta.

Mas existe uma linha tênue. Quando você utiliza suas frustrações, suas dificuldades ou as injustiças que enfrenta para atacar outras pessoas ou praticar atos imorais, porque não aceita o mundo como ele é, você não está se tornando alguém melhor. Você não está abrindo espaço para a sua autenticidade; você está dando lugar à fúria.

Quando pensei em escrever este post sobre aceitar o mundo como ele é, refleti muito. Aceitar o mundo não é conformismo. Sou totalmente contra a ideia de alguém se conformar com uma situação em que não se sente bem ou confortável. Aceitar o mundo é, na verdade, entender como ele funciona e desenvolver jogo de cintura para atravessar os problemas — porque eles sempre existirão, de uma forma ou de outra.

No mundo, haverá imperfeições, pessoas falhas, discursos ruins e negativos. Mas, ao mesmo tempo, percebo que aqueles que têm discursos positivos, que promovem debates construtivos e buscam transformar a realidade, muitas vezes não são ouvidos, por conta daqueles que semeiam caos.

A história mostra que muitos grupos, como mulheres, negros ou pessoas com deficiência, enfrentaram séculos de opressão. Hoje, vemos, mesmo que pouco, algum progresso, e acredito que o futuro trará avanços ainda maiores para diversos grupos. Isso acontece porque essas pessoas não se conformaram, mesmo enfrentando jornadas difíceis para reconquistar direitos que lhes pertencem.

Então, quando falo sobre aceitar o mundo como ele é, por mais contraditório que pareça, quero dizer que se trata de não bater de frente o tempo todo. É saber agir com moderação e com estratégia, cuidar de si, para que o impacto das dificuldades seja menor.


Estoicismo e autenticidade: encontrando harmonia no presente

No estoicismo, a ideia de aceitar o mundo como ele é significa compreender que o universo é regido pela Logos, uma ordem racional. Embora possamos controlar nossas ações e reações, não temos controle sobre muitos eventos externos.

Essa aceitação se baseia na harmonia com a natureza e na concentração na virtude interna, em vez de se prender à busca de resultados externos que estão fora do nosso alcance. O estoicismo enfatiza que devemos focar em controlar nossas ações e reações, e não tentar controlar eventos externos, porque isso, além de nos distrair, muitas vezes não leva a nada ou demora muito mais do que gostaríamos.

O estoicismo também incentiva viver no presente, concentrando-se no momento atual, ao invés de se preocupar excessivamente com o passado ou o futuro, pois essas preocupações trazem sofrimento que não está sob nosso controle.

Assim, essa busca de mudar o mundo, por mais justa e verdadeira que seja — esse inconformismo que mencionei anteriormente, e com o qual concordo — pode gerar estresse e frustrações para pessoas que ainda não desenvolveram plenamente sua autenticidade. É o mesmo ponto que tratei na edição anterior, sobre a ilusão do controle.

Embora algumas pessoas e grupos estejam conseguindo mudar mentalidades e impactar o mundo, essas conquistas muitas vezes vêm acompanhadas de muito esforço e fatores estressantes que poderiam ser atenuados se a sociedade soubesse dialogar.


Entre opiniões e preconceitos: o desafio da inteligência emocional

Hoje em dia, existe um grande problema relacionado à aceitação das diferenças. Muito se fala sobre aceitar diferenças, mas, na prática, isso nem sempre acontece. Por mais que se discuta a aceitação das diferenças físicas, um debate legítimo e necessário, atualmente há uma grande intolerância das pessoas em relação a diferenças culturais e ideológicas.

Percebo que pouco se fala sobre diferenças ideológicas e de opinião e como elas têm se tornado alvo de preconceito. Falta compreender que a diversidade de pensamentos é tão natural quanto a diversidade racial, religiosa ou cultural. O coerente para o ser humano é buscar essa aceitação.

Por mais que você não concorde com os princípios ou o modo de vida de outra pessoa, isso não significa que a vida dela não faça sentido. Cada indivíduo busca autenticidade e vive de acordo com o que considera certo para si. Se para uma pessoa faz sentido, por que julgar, criticar ou segregar, simplesmente porque não se encaixa na nossa própria visão de mundo?

Lidar com essas diferenças exige um nível elevado de inteligência emocional. E, infelizmente, muitas pessoas não querem desenvolver essa habilidade. Preferem debater para criticar, e não para aprender.


Aprender a se relacionar: consigo e com os outros

E, para concluir, eu gostaria de falar sobre aprender a se relacionar consigo mesmo e com os outros. Muitas pessoas não sabem se relacionar com os outros porque não sabem se relacionar consigo mesmas.

Essa compreensão de si, essa busca por autoconhecimento, é essencial para nos entendermos e, a partir daí, conseguirmos aceitar os outros e suas diferenças. Existe um nível muito grande de ignorância emocional. No passado, havia outras segregações mais evidentes; hoje, parece que a segregação se manifesta fortemente de forma ideológica e intelectual.

Muitas pessoas não se compreendem e não conseguem entender que alguém pode ser feliz vivendo de uma forma diferente da que elas escolheriam, e isso é totalmente compreensível, considerando a pluralidade de diferenças entre os seres humanos. Não conseguir compreender isso de forma lógica revela um nível de incapacidade emocional significativo, e essa falta de inteligência emocional tem adoecido muitas pessoas.

Portanto, eu questiono: será que o problema de fato é que não estamos aceitando o mundo como ele é, por que não aceitamos a nós mesmos?

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Oi, sou Nick!

Sou escritora, formada em Licenciatura em Letras e tenho me aprofundado em Sociologia e Filosofia. Atualmente, atuo na área de Marketing, explorando estratégias, comunicação e comportamento humano. Minha trajetória é guiada pela busca constante por conhecimento, reflexão crítica e conexão entre ideias, pessoas e contextos sociais.


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