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Escrevo este conteúdo como um alerta, pois noto uma alienação crescente na internet e nas redes sociais.

Apesar de esse fenômeno sempre ter existido nas relações sociais, a disseminação de conhecimento raso, que historicamente sempre gerou alienação, é atualmente amplificada intensamente pela internet.

O conteúdo de hoje, portanto, é um pouco mais denso. Falarei sobre a internet, sobre construção de narrativas e sobre como esse universo funciona, porque, no fim das contas, tudo isso está profundamente ligado à publicidade.

Muito se fala sobre a internet ser prejudicial e sobre diversos outros problemas associados a ela. Mas eu quero lembrar de algo essencial: o problema nunca foi a tecnologia. Quem utiliza a internet são os seres humanos. Somos nós que estamos nos relacionando e, por meio da internet, ampliando esses relacionamentos para uma escala global.

Então, a primeira coisa que eu quero que você pense é a seguinte: a grande problemática da internet hoje são bilhões de seres humanos se relacionando em grande escala sem saber lidar com isso. Sem saber lidar com o fato de que todos estão sendo vistos e de que tudo o que é dito na internet pode, em algum momento, ser ampliado, recortado ou distorcido.

Antigamente, sem internet, não existia a possibilidade de ter uma voz em larga escala. Também não havia como ser conhecido por tantas pessoas ou conhecer tanta gente. Nosso convívio era limitado às pessoas próximas: família, amigos, vizinhos, no máximo pessoas do bairro ou da cidade.

Hoje, isso mudou completamente. A internet permite que conheçamos pessoas sem fronteiras. E é justamente aí que surge uma das grandes dificuldades: muitas pessoas não conseguem lidar com o nível de expansão que a internet trouxe para a sua vida, e as escolas também não preparam os indivíduos para a vida conectada.

Existe ainda outro ponto importante: a quantidade de informação disponível. Há diversas pessoas e empresas disseminando conteúdos na internet, e somos constantemente expostos a dados, opiniões e discursos. Mas é fundamental entender que nem tudo o que está na internet é conhecimento. Muitas vezes, são apenas milhares de informações soltas que não vão te servir para nada.

É um fato que os maiores empresários que estão à frente e são donos de grandes empresas de tecnologia e redes sociais já declararam diversas vezes que seus filhos não têm tanto tempo de tela, nem permanecem tanto tempo online.  Bill Gates e Steve Jobs afirmaram em entrevistas que limitavam o uso de tecnologia para os filhos, justamente por entenderem o potencial impacto excessivo das telas na infância. Gates proibiu que seus filhos tivessem smartphones até os 14 anos e limitou o uso de gadgets em casa, e Jobs afirmou que sua família limitava significativamente quanto tempo as crianças usavam tecnologia em casa.

Então, se os próprios donos dessas empresas não permitem que seus filhos utilizem a internet o tempo todo, por que nós nos colocamos nessa posição?


Você escolhe o que consome ou o algoritmo escolhe por você?

Atualmente surgiu um termo que vem ganhando força recentemente, o “cronicamente online”, que é basicamente, quando a pessoa vive conectada, reagindo o tempo todo ao que aparece na tela, inteirado da trends, memes, etc. Eu não considero isso saudável para o equilíbrio mental e, principalmente, para o desenvolvimento do conhecimento e da autenticidade das pessoas.

Alguém que não consegue estipular ou controlar o tempo que passa na internet, muito provavelmente também não tem controle sobre outros aspectos da própria vida. Ela vive em um fluxo contínuo de estímulos, pulando de conteúdo em conteúdo, scrollando a tela de forma automática.

É claro que hoje quase todo mundo faz isso em algum grau. Mas o problema começa quando não existem limites claros. Quando a pessoa apenas rola a tela sem nenhum tipo de intenção ou comando.

Se você não calibra o seu algoritmo para receber conteúdos relevantes, conteúdos que realmente tenham relação com o que você busca, você passa a consumir uma sequência infinita de assuntos aleatórios. E isso contribui diretamente para a alienação.

Uma forma prática de evitar isso é utilizar mais a área de busca das redes sociais, em vez de apenas consumir o que aparece no feed. Quando você busca ativamente por temas específicos, o algoritmo entende melhor seus interesses e passa a te mostrar conteúdos mais alinhados com aquilo que você realmente quer ver.

Quanto mais você usa a busca de forma consciente, mais força você dá ao seu próprio direcionamento dentro da rede social. Isso é uma maneira de retomar o controle da experiência digital, em vez de ser controlado por ela.

Caso contrário, você continuará sendo exposto a informações desconexas, superficiais e irrelevantes e isso, aos poucos, vai alimentando um estado constante de distração e desalinhamento.

Quantas pessoas você conhece que apenas repercutem falas de influenciadores ou de políticos sem nem cogitar questionar, contra-argumentar ou exercer qualquer senso crítico sobre o que está sendo dito? Quantas conhece que não possuem repertório cultural para discutir sobre assuntos que não estejam ligados à mídia pop ou ao que virou manchete nas redes sociais?

Isso é algo muito importante de ser salientado: você não pode acreditar em notícias de 280 caracteres, como as publicadas na rede social X (antigo Twitter). Redes sociais não servem para te informar de forma profunda. Você não deveria sequer cogitar aprender algo complexo ou aprofundado apenas por meio de uma rede social.

Conhecimento exige tempo, profundidade e contexto. Ele vem de artigos longos, textos densos, leituras que te façam pensar, refletir e construir uma crítica social própria. No máximo, as redes sociais deveriam ser utilizadas como ponto de partida: para captar insights, temas ou provocações que, depois, você irá aprofundar em fontes mais consistentes.

Eu mesma produzo diversos vídeos curtos nas minhas redes sociais. Crio conteúdo sobre escrita, autenticidade e outros temas. Mas esses conteúdos são apenas uma prévia do que eu penso e estudo. Eles existem para despertar interesse e incentivar as pessoas a buscarem os conteúdos mais aprofundados que eu produzo, além de indicar outras fontes onde esse conhecimento pode ser expandido.

Eu sempre incentivo, nas minhas redes, que as pessoas leiam livros, livros técnicos, clássicos, ensaios e também artigos. Eu não aconselho ninguém a se informar por meio de notícias em redes sociais, pois são, em sua maioria, manchetes rasas, altamente enviesadas, construídas para induzir alinhamento imediato, emoção rápida e reação impulsiva.

Hoje, as redes sociais são uma das maiores ferramentas de manipulação da mídia. Se você quer realmente se informar, entender contextos e formar opinião, leia jornais. Sim, jornais.

É comum ouvir o argumento de que jornais têm viés político e isso é verdade, a mídias em sua maioria tem. Por isso mesmo, a melhor estratégia é ler jornais de diferentes vieses. Quando você compara como a mesma notícia é abordada por fontes distintas, você começa a enxergar as camadas do discurso. E, a partir disso, com senso crítico, você consegue extrair aquilo que realmente faz sentido para você.

Você pode perceber, por exemplo, que um jornal traz um conteúdo mais denso, mas ainda assim enviesado. E a única forma de se aproximar do que é mais próximo da realidade é questionando tudo: lendo muito, comparando fontes, mas sem aceitar nada de imediato como verdade absoluta.

Eu, por exemplo, leio jornais todos os dias. Mas sou seletiva quanto ao tipo de notícia que consumo. Não busco me aprofundar em conteúdos sensacionalistas, violentos ou feitos apenas para gerar comoção em massa. Prefiro notícias que ampliem meu repertório: economia, marketing, geopolítica, sociologia, pesquisas, análises estruturais. Leio também diversos artigos aqui no Substack, no Medium, entre outros sites que eu mesma busco ativamente. 

Informação não é sobre saber de tudo.

É sobre saber escolher o que realmente constrói pensamento.

Você precisa ter em mente que criticar o conhecimento que está recebendo, a informação que chega até você, é o primeiro passo para compreender melhor o mundo de hoje.

Neste momento, você pode estar lendo até este texto e questionando o que estou dizendo. E é exatamente isso que eu quero que você faça! Você deve questionar todas as nuances. Alguém que não questiona não consegue compreender no mundo atual.


Opiniões emprestadas não são pensamentos críticos

Sobre o tema deste texto, o que eu percebo é que muitas pessoas, como mencionei no post anterior, não sabem quem são. Elas estão perdidas em relação aos próprios gostos, ao que lhes faz bem, ao que não gostam. E tentam aprender isso observando os outros. Isso é normal: seres humanos são seres sociais, aprendem por espelhamento.

O problema é que hoje existe uma busca constante por esse autoconhecimento exclusivamente através da internet. E é preciso entender algo fundamental: você não vai compreender o seu mundo interno buscando respostas apenas no externo. Isso só gera alienação. A internet não tem todas as respostas para a sua vida.

O único caminho para se construir como um ser pensante é pensar com a própria cabeça, questionar o que está acontecendo ao seu redor. Vivemos em uma era de excesso de opiniões. Muitas delas vindas de pessoas muito jovens, cheias de certezas, alimentadas por validação constante. Essas pessoas acreditam que estão corretas simplesmente porque suas opiniões são reforçadas por grupos.

Mas, quando você conversa de forma mais profunda com esses indivíduos, percebe que são opiniões rasas. Construídas a partir de frases curtas, muitas vezes no formato de 280 caracteres, vistas repetidamente em redes sociais. E então, surge a crença equivocada: “se muitas pessoas estão dizendo a mesma coisa, isso deve ser verdade”.

As grandes mídias frequentemente utilizam a construção de narrativas para criar conexões emocionais com as pessoas, fazendo com que elas acreditem em verdades criadas.

Por exemplo: quando você percebe que muita gente está falando sobre algo, dizendo que aquilo é muito bom, ou, ao contrário, muito ruim, questione. Pense: de onde veio essa informação? Por que todo mundo está falando sobre isso?

Existe toda uma indústria de marketing por trás, inclusive de disseminação de informações falsas. E, na realidade em que a gente vive hoje, o que muitos chamam de “matrix”, essa matrix é na verdade, uma prisão mental. As pessoas muitas vezes não sabem o que está acontecendo de fato porque grandes empresas e governos utilizam o marketing massivo e a disseminação de informações para ludibriá-las. Além disso, é muito difícil quebrar esse ciclo.

A maioria das pessoas no país não lê. E, quando lê, consome conteúdos bastante superficiais (e quando eu digo isso, não estou dizendo para você parar de ler por entretenimento), mas você também precisa ler para adquirir conhecimento. Independentemente de você não estar mais cursando uma faculdade ou uma pós-graduação, você não pode parar de estudar só porque a formação acadêmica acabou. O estudo precisa ser constante. O conhecimento precisa ser constante.

E é nesse momento que, quando você adquire conhecimento, você não pode mais colocar toda a culpa nas mídias, nas grandes empresas e nos governos apenas. A partir daí, passa a ser uma responsabilidade sua. É você que deixa de raciocinar. É você que deixa de buscar.

Quando você tem condições de bancar seus estudos, de comprar livros, quando você tem acesso a jornais, acesso à internet, ou seja, quando você não está mais em um estado de pobreza extrema, quando tem uma vida minimamente estruturada e tempo para se dedicar, você não pode mais procurar culpados!

Hoje, vivemos em uma era da internet em que o conhecimento está amplamente disponível. Por isso, precisamos parar de culpar somente os outros e as circustâncias.

É claro que existem vários responsáveis por esse cenário, mas nós também temos a nossa parcela quando deixamos de estudar, quando temos tempo e procrastinamos, escolhemos não ler um jornal, não aprofundar, não buscar.

E, para você entender mais ou menos como isso funciona dentro da publicidade: quando eu falo do campo da publicidade, não estou falando apenas da venda de produtos, estou falando de tudo, inclusive de notícias.

Muitas vezes você acredita que algo está sendo apenas noticiado, mas existe ali um viés que incentiva consumidores a tomarem determinado tipo de atitude. Notícias também fazem parte disso.

O tempo todo, empresas utilizam a publicidade e a construção de narrativas como ferramentas poderosas para persuadir as pessoas a adotarem determinadas opiniões. Às vezes essa opinião está ligada a comprar algo ou deixar de comprar algo; outras vezes, a aderir a uma ideologia ou até a um partido político.

No fim das contas, tudo está relacionado ao consumo e à estratégia de fazer com que a grande massa tome decisões que a mídia deseja que sejam tomadas. 


E o que isso tem a ver com autenticidade? 

Porque é nesse momento que você é influenciado, que você vai perdendo a sua identidade. Quando você quer se sentir incluido nas tendências, quando gasta dinheiro que não tem para comprar um Labubu, ou um bebê Reborn (tendências de consumo de 2025).

É assim que funciona. Sempre foi assim. desde o início da publicidade. A difença é que hoje a publicidade se tornou mais sofisticada com as redes sociais.

Acreditar em tudo o que você lê na internet é escolher ser ludibriado, pois isso transforma indivíduos em pessoas alienadas. Nesse processo, você coloca o seu cérebro, um órgão extraordinário, dotado da capacidade de pensar criticamente, em modo inativo. Você escolhe seguir a massa. Escolhe não questionar.


Como a polarização, o ruído e o moralismo digital alimentam a alienação coletiva

O que vemos hoje na internet são grupos com opiniões divergentes se atacando constantemente. Cada grupo acredita estar moralmente correto e passa a atacar o outro com base em suas próprias crenças. Todos munidos de um discurso “politicamente correto”, mas completamente desconectados de contextos históricos, políticos e culturais mais amplos.

Isso gera uma confusão social enorme. Muitas dessas disputas funcionam como verdadeiras cortinas de fumaça. São alvoroços que desviam a atenção coletiva de questões realmente importantes que estão acontecendo no Brasil e no mundo.

Na política e também em cenários de guerra, essa é uma estratégia conhecida: sempre que algo estrutural acontece, outro evento surge para ocupar o debate público. A atenção da massa é desviada.

Por isso, este texto é um alerta. Vivemos em um momento histórico em que é extremamente difícil não cair em algum tipo de alienação. As pessoas que detêm poder,  que comandam estruturas políticas, econômicas e midiáticas, sabem como controlar narrativas. Fazem isso através da disseminação massiva de informações, criando confusão mental, excesso de estímulos e opiniões polarizadas.

Existem formas muito eficazes de construção de narrativa para moldar a opinião pública. E, quando um indivíduo vê milhares de pessoas repetindo a mesma ideia, torna-se difícil sair daquela bolha. Os grupos ideológicos se fecham, deixam de dialogar e passam a apenas reagir.

Então, como quebrar esse ciclo? Como desenvolver conhecimento real?

O primeiro passo é se afastar das redes sociais por um momento. Ou, ao menos, aprender a calibrá-las. Consumir apenas conteúdos que realmente agreguem. Esse turbilhão constante de informações não vai te ajudar a se tornar um ser humano mais crítico, nem a construir a pessoa que você deseja ser.

É necessário sair das redes, diminuir o ruído e começar a ler. Ler textos longos, profundos, que exigem tempo, silêncio e reflexão. Só assim você desenvolve pensamento crítico, autonomia intelectual e autenticidade.


Consciência não é informação, é filtro

Com o post de hoje, o que eu realmente quero é que você reflita sobre a construção do seu “eu”.

Se você chegou até este texto, acredito que esteja, de alguma forma, tentando construir um novo eu: mais autêntico, mais centrado, mais consciente. E, para que isso aconteça, é necessário parar de buscar conteúdos rasos como fonte principal de aprendizado e começar a procurar conhecimentos mais aprofundados.

Eu sei que isso não é simples. Existe uma dificuldade real. Muitas pessoas não nasceram em ambientes que incentivassem o contato com livros, estudos profundos ou conteúdos que estimulassem o pensamento crítico. Muitas cresceram em contextos onde a prioridade era sobreviver, e eu entendo isso, pois também vivi essas mesmas circunstâncias. Eu sei exatamente o que leva alguém à alienação.

Mas existe algo que precisamos compreender: o processo de desalienação é individual. Ele depende exclusivamente de você.

Vivemos em uma sociedade extremamente automática, mas ninguém vai apertar um botão e fazer com que você receba os conhecimentos “certos”. 

Você precisa buscar por conta própria. 

Precisa parar de acreditar em tudo o que lê, tudo o que ouve, tudo o que assiste. 

Precisa começar a questionar tudo o que consome.

E não, isso não significa sair das redes sociais ou se afastar de pessoas que você considera alienadas. Muito pelo contrário. Se você convive com essas pessoas, então compartilhe algo que aprendeu, sem egocentrismo, apenas pelo desejo genuíno de compartilhar conhecimento.

Não estou dizendo para você abandonar a internet. A internet é uma ferramenta poderosa. Hoje, temos acesso gratuito a conteúdos que, em outras épocas, seriam impensáveis. O problema não é a internet. O problema é a falta de filtro.

A maioria das pessoas não sabe filtrar o que consome e é exatamente isso que tem prejudicado o desenvolvimento pessoal de tanta gente. Muitas não percebem que têm o poder de escolher o que querem consumir, em vez de apenas aceitar o que o algoritmo entrega.

Você pode, por exemplo, usar a busca das redes sociais para procurar ativamente os temas que deseja aprender, em vez de apenas ficar no modo automático, rolando a tela. Você pode escolher os conteúdos pelos quais quer ser impactado. Isso é autonomia. Isso é consciência.

E é isso que eu sempre vou incentivar: que você questione tudo o que consome. 

Eu sou a favor do desenvolvimento individual. Sou a favor de pessoas que questionam, que aprofundam, que pensam até compreender exatamente quem são, o que buscam, o que querem viver e até o que não querem mais carregar.

Espero que tudo o que foi dito aqui tenha te trazido mais clareza.

E, se surgir qualquer dúvida ou reflexão, os comentários estão abertos.


 

Muitas pessoas têm a falsa ideia de que individualidade é a mesma coisa que egoísmo. E, muitas vezes, por serem confundidas como egoístas, elas não cultivam a própria individualidade. Têm medo de serem tratadas como pessoas egocêntricas.

E até eu mesma me confundi por anos com esses conceitos. Fui confundida por diversas pessoas e me confundi por causa dessas falácias ao longo do tempo.

Existe uma grande diferença entre essas duas questões e eu vou explicar.

Individualidade é você se reconhecer e se valorizar. É valorizar as suas características únicas. É ter autonomia, autorrespeito, autoconhecimento, entender os seus gostos e como você quer viver a sua vida.

Já o egoísmo é uma preocupação excessiva com os próprios interesses, muitas vezes prejudicando outras pessoas, buscando vantagem pessoal sem considerar o bem-estar alheio ou a ética. Ou seja: uma pessoa com comportamentos em que ela vai sempre tirar vantagem do outro.

Existe uma discrepância gigantesca entre alguém que cultiva sua individualidade com autonomia e alguém que tenta constantemente tirar vantagem do outro.

E aí eu me pergunto: por que, no mundo de hoje, ainda existe tanta confusão em torno desses dois assuntos?

Individualidade

  • Foco em cuidar de si mesmo;
  • Valorização dos próprios valores;
  • Autoconhecimento;
  • Independência;
  • Autorrespeito.

Quando você entende sua individualidade, você também respeita os outros. Você enxerga cada pessoa como um indivíduo e não como um número na sociedade, além de buscar a harmonia nos ambientes.

Ao buscar a individualidade, a pessoa cultiva quem ela é, se entende para poder entender o mundo ao seu redor e entende as particularidades de si e dos outros.

Egoísmo

  • Foco exclusivo nos próprios interesses;
  • Usa o ego como referência para tudo;
  • Busca constante de vantagem sobre os outros;
  • Falta competência para lidar com a própria vida;
  • Tenta anular os outros;
  • Vê as pessoas como meios para obter vantagem;
  • Prejudica o outro para se beneficiar.

Pessoas egoístas geralmente se escondem em grupos coletivos, ambientes perfeitos para a validação do ego.

Existe essa confusão porque ambos envolvem o “eu”. E tudo que envolve o “eu” é visto como egoísmo. Mas a busca pela individualidade é saudável quando você se torna autêntico e independente. Quando você se entende, você também entende melhor as pessoas.

O egoísta, por sua vez, sempre irá se colocar no centro do mundo. O egoísta não possui individualidade. Ele sequer se entende como indivíduo, apenas como alguém que precisa tirar vantagem dos outros. Ele não sabe que pode ter uma vida plena se entendendo e vivendo sem esses artifícios.

No mundo de hoje, na sociedade que vivemos, desde a infância as crianças são ensinadas a não serem autofocadas, mas a se destacar. E essas duas coisas são completamente diferentes.

Ser autofocado é voltar-se para si, para a própria vida, escolhas, identidade.

Se destacar é depender do olhar do outro, dos elogios, da validação externa.

Porque, quando você busca se destacar, você precisa estar cercado de bajuladores, pessoas te elogiando, te oferecendo algo. Já quando você tem autofoco, você não está pensando no que vai receber dos outros, você está pensando em quem você é.

A maioria das pessoas não sabe quem é. Basta observar um pouco as pessoas: muitos não sabem seus gostos particulares, o que não gostam, o porquê fazem o que fazem, ou qual direção querem seguir na própria vida.

Vemos parte disso refletido na alta taxa de depressão no mundo.

É claro: existem pessoas que passaram por situações extremamente dolorosas e, por isso, adoeceram. Mas a humanidade sempre viveu em contextos de violência, guerras e perdas. Hoje, mesmo em países que não estão em guerra, ainda assim o número de depressões é preocupante.

Acredito que esse número também cresce devido à falta de autoconhecimento.

Quando a pessoa não sabe quem é, o ego assume o controle.

O que é o ego e qual sua função?

Para você entender: o ego tem uma função protetora.

Ele protege a nossa ideia sobre nós mesmos. Ele age como mediador entre o que vem de fora (a realidade externa) e o interno, como traduzimos o mundo para que nossa identidade não se “quebre”.

Então, quando uma pessoa não sabe quem ela é, ela entende o mundo apenas através do que o ego já conhece: suas experiências, crenças limitadas, dores e medos.

Ela interpreta tudo com base nesse repertório e não com base em quem realmente é.

Por isso, alguém com uma mente autêntica tem dificuldade em conversar com uma pessoa egoísta: a pessoa egoísta literalmente não consegue compreender porque a realidade que o outro apresenta não existe dentro dela.

A mente dela não tem estrutura, conhecimento ou autoconhecimento suficiente para suportar aquele nível de visão.

Ela usa o ego como escudo, protegendo uma identidade frágil.

E, ao fazer isso, mantém-se estagnada.


Permanecer assim… ou crescer?

As pessoas podem escolher permanecer do jeito que estão, funcionando através do ego, limitadas, reagindo ao mundo. Ou podem escolher crescer, buscar autenticidade, desenvolvimento pessoal e autoconhecimento.

Esse crescimento pode acontecer por várias vias:

  • Terapia;
  • Observação do mundo e das pessoas;
  • Buscar entender antes de julgar;
  • Olhar para si com coragem;
  • Questionar o que se é e o que se deseja ser.

Mas a verdade é: a maioria escolhe permanecer como está.

E quem busca autenticidade costuma ser minoria e, por isso, sente-se deslocada.


Pessoas autênticas experimentam uma solidão específica

Elas percebem que:

  • Nem todo mundo consegue acompanhar seus pensamentos;
  • Nem todo mundo está disposto a conversar profundamente;
  • Nem todo mundo tem capacidade mental para uma visão mais disruptiva sobre o mundo.

Ser autêntico é saber exatamente onde você termina e onde o outro começa.

É simples, mas exige coragem.

E sim, existe um medo real das pessoas autênticas se mostrarem ao mundo. Porque bancar quem se é… traz consequências. E essas consequências muitas vezes geram desconforto: julgamento, silêncio, falta de compreensão.

Por isso, muitas pessoas autênticas se escondem.

Mas autenticidade não deixa de existir por estar quieta, ela só aguarda o momento em que alguém esteja disposto a realmente enxergar.


Relato Pessoal: Sobre me mostrar para o mundo

Desde criança, eu sempre fui autoconsciente em alguns aspectos. Eu entendia as nuances ao meu redor, percebia que as pessoas eram diferentes, que cada um tinha gostos próprios, interesses, formas singulares de existir. E, para mim, isso sempre foi fascinante. Eu gostava dessa diferença entre as pessoas porque ela me permitia enxergar os indivíduos como indivíduos, pelos seus próprios aspectos.

Só que, desde cedo, eu senti uma resistência enorme do ambiente para tentar me encaixar em padrões de pensamento. Só que eu não queria me encaixar.

Com o tempo, estudando e observando mais o mundo, percebi algo: a comunicação com as pessoas ao meu redor, principalmente jovens da minha idade, começou a ficar difícil. Eles estavam em um processo de formação de opinião, mas essa formação, para mim, culminava em algo: a construção do egoísmo.

Comecei a ver discursos sempre focados neles mesmos.

Pessoas não dispostas a aprender, nem a trocar ideias para crescer, mas dispostas apenas a discutir para alimentar o ego.

As discussões deixaram de ser sobre conhecimento e passaram a ser sobre competição.

Menos troca, mais disputa.

E foi duro perceber isso, principalmente com pessoas com quem eu tinha um carinho muito grande. Pessoas que, pela minha ingenuidade juvenil, eu colocava até num pedestal… E que depois vi o quanto eram egoístas e não queriam aprender.

Para mim, aprendizado sempre foi algo grandioso.

Sempre gostei de conversar pelas ideias, não para me sentir superior.

E, quando percebi que ao meu redor as conversas viravam guerras silenciosas de validação, comecei a abominar esse tipo de comportamento.

Só depois percebi o quanto isso impactou a minha autenticidade e, por isso, com o tempo, eu precisei me afastar. Porque ouvir discursos engessados daqueles que colocam você em caixas, destrói as nuances, simplifica quem você é, te reduz.

As pessoas tratam o mundo como preto ou branco. E, quando descobrem algo “novo”, elas param ali, não aprofundam, não buscam mais. É triste ver pessoas com potencial tão grande se tornando prisioneiras do próprio ego.

Ouvi muita coisa sobre mim nesse processo.

Ouvi que focar em mim mesma era egoísmo. Que querer me desenvolver como pessoa e profissional era egocentrismo. E, por um tempo… acreditei nisso.

Eu me confundi.

Somente após algum tempo de terapia e estudos para eu entender o tamanho dessa falácia. Porque quem me julgava assim… não sabia quem eu era. Não cultivava sua essência. E se deixava de lado para caber no ambiente.

Quem busca autenticidade precisa ter cuidado com opiniões alheias.

É necessário observar:

  • Como essa pessoa se trata e trata os outros;
  • Qual é o caráter dela;
  • Se suas palavras vêm de bondade ou de controle.

Porque existem opiniões que parecem “boas”, carregadas de bondade e politicamente correto, mas que, no fundo, vêm carregadas de julgamento e coerção.

E algumas pessoas chegam a te colocar em situações de vexame, só para elas parecerem corretas. Esse é o comportamento egoísta.

Minha virada de chave foi essa:

Entender que uma pessoa que realmente quer fazer o bem nunca coloca outra em situação humilhante. Nunca adota tratamento passivo-agressivo. Não é associada à cultura de cancelamento na internet.

E, mesmo assim, na internet, o linchamento virtual se tornou uma prática normalizada, ironicamente em nome do “bem coletivo”.

O post de hoje foi sobre isso: a importância de buscar a individualidade para, então, alcançar autenticidade. E parar de acreditar nos estereótipos criados por pessoas egoístas.

Porque, no fim…

Quem realmente está buscando o bem começa primeiro por si. Se conhece. Se organiza. Se centra.

E só depois contribui com o mundo.


 

Este texto talvez seja um dos mais importantes desta série de conteúdos. De tudo que aprendi e compreendi sobre autenticidade, nada é mais crucial do que a escolha adequada dos ambientes.

Entenda: os ambientes não apenas moldam quem você é no dia a dia, mas também têm o poder de potencializar ou corroer suas qualidades. Você pode se tornar uma pessoa ainda melhor, ou, ao contrário, ser influenciado negativamente. O ambiente exerce uma força gigantesca sobre cada indivíduo, pois representa o coletivo.

Sabe quando seus pais dizme que algumas pessoas são “más influências”? Muitas vezes, eles podem estar certos. Pela experiência, eles já viveram o suficiente para saber que há pessoas que não conseguem conduzir e orquestrar um ambiente de forma saudável e isso afeta diretamente quem está inserido ali. Essa, aliás, é a verdadeira força de um ambiente: ele molda comportamentos.

O ditado “quem anda com porcos, farelos come” exemplifica de forma absoluta a dinâmica social: o meio influencia quem você se torna. Se você está cercado por pessoas que valorizam estudo, ética, ações construtivas e princípios, naturalmente sentirá essa pressão positiva e se alinhará a ela. Por outro lado, se o ambiente é dominado por práticas negativas, discursos destrutivos ou até comportamentos criminosos, você também pode ser levado a adotar tais condutas.

Não adianta afirmarmos que não somos influenciáveis. Se convivemos com maus hábitos, cedo ou tarde, seremos tentados a reproduzi-los. Às vezes, fazemos isso até como uma estratégia de sobrevivência, para não nos sentirmos inadequados. Entender que nós como seres humanos, possuimos essa sombra, é extremamente útil para nos tornarmos mais maduros.

Sabe quando dizem que uma pessoa é mudou porque passa a agir de forma diferente? Isso geralmente ocorre porque ela foi inserida em um ambiente que pressionava sua adaptação. E, nesse processo, outros podem interpretar mudanças como “influência”. Todos nós somos, de certo modo, influenciáveis, dependendo do ambiente em que estamos. Por isso, a escolha do espaço em que vivemos é tão decisiva.

Ambientes negativos constroem narrativas, dinâmicas e até ataques sutis à nossa autenticidade: opiniões passivo-agressivas, piadas com afinetadas, olhares de julgamento… tudo para que você se encaixe. E, diante dessa pressão, a verdade é que só existem duas saídas: ou você se alinha ao grupo, ou você vai embora.

É exatamente por isso que é muito mais saudável se afastar de pessoas com hábitos que não condizem com a vida que você deseja construir, pessoas indisciplinadas, grupos que normalizam comportamentos autodestrutivos, ambientes onde irresponsabilidade e apologia a atitudes nocivas são tratadas como norma.

Nós somos, sim, uma média das pessoas com quem convivemos. E a frequência do ambiente, seja ela elevada ou baixa, inevitavelmente nos impacta.

Gosto muito de algo que a filósofa Lúcia Helena Galvão sempre diz: “é importante depurar o gosto.”

Quando frequentamos ambientes que nos puxam para baixo, que provocam queda de hábitos, perda de energia, ausência de ética e responsabilidade, seremos influenciados, mesmo que não participemos ativamente. Estando ali, estamos absorvendo.

Da mesma forma, é impossível não ser transformado quando entramos em espaços de alta vibração: ambientes com bons hábitos, cultura do respeito, estética harmoniosa, músicas suaves, convivência ética.

Nós nos refinamos quando o ambiente nos eleva.

Por isso, depurar o gosto é essencial para a qualidade de vida.

E quando falo de “gosto”, não me refiro apenas ao gosto estético superficial, mas à escolha consciente por tudo aquilo que é harmônico, íntegro, autêntico, alinhado com nossos valores. Porque o gosto é, também, uma expressão ética.

Para resistir à força do ambiente, é necessário ter uma mente autêntica e bem estruturada. A pressão é comparável a uma força gravitacional: opressora e constante. E não se trata de uma manipulação deliberada; muitas vezes, a força do ambiente decorre de padrões socialmente aceitos por cada grupo.

Cada comunidade possui suas ideologias e normas implícitas. Se você não se enquadra nesses padrões, a pressão se torna intensa, seja para seguir um caminho virtuoso ou para ceder a práticas negativas.

Vamos destrinchar mais profundamente essa relação entre ambiente, autenticidade e escolhas individuais.


A autenticidade não resiste onde o ambiente a sufoca

Praticamente tudo o que escrevi nos posts anteriores foi para chegar a este ponto: a importância de reconhecer o quanto é difícil preservar a própria autenticidade em ambientes que divergem do que você realmente deseja.

Muitas vezes, o ser humano nasce em um contexto que, ao longo do crescimento, percebe que não representa quem ele é. Como mencionei no post sobre os impactos da pobreza, às vezes crescemos em ambientes barulhentos, onde comportamentos e crenças prejudiciais são normalizados. Em outros textos, falei sobre traumas de abandono e rejeição, sobre o quanto desenvolvemos, desde a infância, um sistema de crenças que precisamos desconstruir para nos tornarmos autênticos. Para isso, é necessário confrontar pensamentos e padrões que não funcionam para nós.

O ambiente exerce uma força imensa nesse processo. Se você está cercado por pessoas que validam pensamentos de abandono ou reforçam padrões limitantes, é extremamente difícil quebrar essas barreiras. No post sobre não aceitar a mediocridade, discuti como certos grupos socializam a ideia de que devemos nos contentar com pouco, que escolher demais é inútil. Mas, se você acredita que merece mais, está divergindo da norma desse grupo, e a pressão para que você se alinhe será constante. Eles sempre terão argumentos para desacreditar suas escolhas, questionar seus padrões e tentar rebaixar suas expectativas.

Essa força do ambiente é evidente quando você muda de contexto. Ao sair de um espaço que não fazia sentido para você, pode perceber mudanças internas: ao rever pessoas antigas, muitas vezes ouve comentários como “Você mudou, nem lembra mais como era antes”. E é verdade: você mudou porque não ressoa mais com aquele ambiente.

O impacto de um ambiente negativo é enorme. Se você permanece em um contexto que puxa você para baixo, será constantemente influenciado por crenças limitantes alheias: ouvir todos os dias que algo ruim vai acontecer, que você não merece, que deveria se contentar com pouco, acaba criando hábitos mentais que reforçam essa narrativa. A consequência é a normalização da mediocridade e a internalização da sensação de que o esforço pode não levar a lugar algum — e isso não é falha sua, é um efeito direto do ambiente.

O ambiente, portanto, molda não apenas nossas escolhas, mas também nossa autoestima e nossa capacidade de ser autêntico. Escolher bem o espaço em que você vive é, muitas vezes, tão importante quanto qualquer outro esforço de desenvolvimento pessoal.


Relato pessoal: Permanecer fiel a mim mesma, apesar da força do coletivo

Sempre tive ambições diferentes e busquei mudanças. Desde cedo, dentro da minha família, eu gostava de experimentar coisas novas, de alterar o ambiente, de conhecer novas experiências. O cotidiano, para mim, nunca parecia suficiente. Eu sempre fui curiosa e inquieta.

No entanto, as pessoas ao meu redor diziam coisas como “você nunca está satisfeita” ou “deveria se contentar”. Meu ambiente familiar exercia muita pressão, e em determinado momento comecei a acreditar que talvez fosse melhor me conformar, diminuir minhas ambições e não sonhar tanto, já que tudo parecia difícil e escasso.

Apesar disso, eu possuía uma força interna: sempre fui automotivada e, mesmo sentindo a pressão do ambiente, resistia, inicialmente de forma inconsciente, depois de forma cada vez mais consciente. Eu me mantive firme em relação aos meus sonhos, mesmo diante da pressão para me adequar e diminuir minhas expectativas.

Esse processo mostra que, mesmo uma pessoa automotivada, é difícil manter a autenticidade e o compromisso consigo mesma. O ambiente tem um peso enorme: ele aprisiona, traz crenças complexas e enraizadas que nos limitam. E muitas vezes, não é culpa das pessoas, mas sim da própria natureza do ambiente, que exerce resistência e dificulta que você siga o que realmente deseja.


Como podemos passar de um ambiente que não nos faz bem para outro que esteja alinhado com o que desejamos?

Primeiro, é importante entender que existem ambientes bons. Você pode, inclusive, estar em um ambiente que é considerado bom para muitas pessoas, mas que, para você, não faz sentido. Por exemplo, você pode estar em um bom ambiente de estudo ou trabalho, mas decidir que quer uma vida mais pacata: morar no interior, plantar, cuidar de animais, ter uma rotina mais tranquila. Mesmo sendo um ambiente positivo, ele não está alinhado com os seus objetivos ou estilo de vida.

Quando decidimos ir em direção a um novo ambiente, mesmo que esse novo lugar seja igualmente bom, surge resistência. As pessoas que permanecem no ambiente antigo tendem a não aceitar bem essa transição. Em grupos, o coletivo busca harmonia. Essa harmonia, muitas vezes inconsciente, se baseia na manutenção de padrões semelhantes de comportamento e pensamento. Mudanças individuais quebram essa uniformidade, e o grupo reage, ainda que de forma sutil ou inconsciente.

Essa resistência ocorre tanto em ambientes considerados bons quanto em ambientes ruins. No entanto, nos ambientes ruins, a resistência é ainda maior. Se alguém deseja sair de um ambiente de menor qualidade para buscar algo melhor, o grupo fará de tudo para mantê-la ali. Existem duas razões principais para isso:

  1. O grupo percebe que, ao querer sair, a pessoa evidencia a mediocridade do coletivo. Para proteger sua autoimagem, o grupo tenta invalidar a decisão de mudança.
  2. O grupo busca manter a unidade e a harmonia interna. Há um conjunto de crenças, muitas vezes inconscientes, que obriga todos a permanecerem alinhados, evitando divergências.

Portanto, a harmonia que mencionei não é sobre convivência amigável ou cordialidade; é sobre manter todos em uma linha de pensamento similar. Quando alguém tenta se tornar mais autêntico ou seguir um caminho diferente, essa harmonia se vê ameaçada, e a resistência surge, consciente ou inconsciente.

Quem você se torna é uma consequência dos grupos que escolhe frequentar

Quando falo de ambientes, não me refiro exatamente a um local físico. Ambientes, nesse contexto, são grupos de pessoas. E esses grupos moldam quem você é. Se você possui autenticidade, consegue transitar entre diferentes grupos e até se afastar quando necessário. Mas se a sua autenticidade ainda não está bem desenvolvida, será difícil resistir às ideias e hábitos do grupo, mesmo que você discorde ou conteste algumas coisas.

É por isso que, muitas vezes, vemos pessoas adiquirindo maus hábitos ao conviver com más companhias. Nem sempre a pessoa tinha esses comportamentos antes; o ambiente e o grupo exercem uma força enorme sobre quem somos. E essa força se manifesta principalmente nos hábitos.

E o que são esses hábitos?

São ações repetidas constantemente, e são essas ações que moldam o caráter. Você pode ter toda a sabedoria e conhecimento de valores que aprendeu em casa, mas ao entrar em um grupo cujos membros não compartilham desses valores, a influência é inevitável. Maus hábitos se espalham: indisciplina, preguiça, críticas constantes, julgamentos, tudo isso impacta diretamente seu caráter. É a metáfora da maçã podre.

O caráter é medido pelas atitudes, não apenas pelos pensamentos. Uma pessoa pode saber o que é certo, ter opiniões éticas e corretas, mas, se adota hábitos errados, seu caráter é comprometido. Portanto, o maior poder do ambiente é moldar nossos hábitos.

Por outro lado, ambientes positivos também têm esse efeito. Estar em grupos que buscam crescimento, praticam o bem, tratam as pessoas com respeito e alegria faz com que você também se torne assim. O ditado “você é a média das cinco pessoas com quem anda” é real: o ambiente molda quem você é.

A grande lição é clara: mudar de vida, preservar ou fortalecer a autenticidade e buscar crescimento pessoal passa, essencialmente, por escolher bem os ambientes em que você se insere.

Além dos ambientes relacionados aos grupos com os quais você convive, existe também o aspecto dos ambientes físicos — especialmente o lugar onde você mora. Esse fator impacta fortemente sua autenticidade, sua autoestima e suas emoções.

No livro A Mágica da Arrumação, de Marie Kondo, ela afirma que apenas o ato de arrumar a casa já transforma a vida, organiza a mente e regula as emoções. Ela inclusive desenvolve um método para isso. Nesse sentido, o ambiente em que você vive, geralmente o seu lar, influencia diretamente sua mentalidade e seu estado emocional, podendo gerar boas sensações, melhorar o humor e proporcionar mais qualidade de vida. Ambientes desordenados amplificam a desordem da mente; ambientes organizados clareiam pensamentos e elevam a autoestima.

Quando você decide reformar, reorganizar ou decorar seu espaço físico com uma estética harmônica e alinhada ao que você realmente gosta, esse ambiente passa a refletir sua autenticidade. Visualmente, ele representa aquilo que você almeja. Todos os dias, essa estética irá dialogar com você, proporcionando alegria, bem-estar e um sentimento de pertencimento. Sua casa passa a ser um reflexo de quem você é, e ao perceber isso, você experimenta paz, identidade e estabilidade emocional.

Da mesma forma, ambientes limpos e bem cuidados afetam de maneira muito significativa o seu estado interno. Embora o ser humano consiga sobreviver em ambientes sujos ou desorganizados, isso não significa que continuará bem emocionalmente. Cuidar da limpeza, da ordem e da estética do lugar onde você mora cria um impacto direto na maneira como você pensa e sente.

Portanto, o ambiente, tanto físico quanto socia, exerce uma força enorme sobre sua vida. Se você não está em lugares ou convivendo com pessoas que façam sentido para sua história, isso inevitavelmente gerará confusão interna, dúvida de identidade e baixa autoestima. Primeiro, você pode se sentir rejeitado, por não corresponder às expectativas daquele ambiente. Segundo, você pode acabar rejeitando os outros, porque simplesmente aquilo não ressoa mais com quem você é.

Por isso, é essencial buscar ambientes que se conectem com aquilo que você almeja. E, infelizmente, isso pode exigir deixar certas relações para trás, ou ao menos, se afastar. Nem sempre é necessário cortar vínculos; às vezes, o afastamento basta para reduzir conflitos e criar espaço para que, futuramente, os caminhos possam se alinhar novamente.

Cada pessoa vive um momento diferente da vida. Às vezes, você e alguém que ama não estão no mesmo estágio, mas se não houver um afastamento temporário, o desgaste e o conflito podem ser ainda maiores. O afastamento pode ser, muitas vezes, a solução mais saudável.

E, por fim: não tenha medo de ficar sozinho. Às vezes, estar só é justamente o que abre o espaço necessário para que o ambiente da sua vida seja reconstruído de forma coerente com aquilo que você realmente é.

Esse foi o post de hoje. Espero que este conteúdo provoque reflexão sobre o quanto os ambientes têm influenciado sua vida, seus desejos e a forma como você se percebe. Que você observe, com mais consciência, se o lugar onde está, física ou socialmente, está fortalecendo quem você é ou diluindo sua identidade.

Não permita que ambientes o influenciem a ponto de você se perder de si mesmo.

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No post anterior, abordei sobre a importância de adicionarmos limites às pessoas para que possamos manter amizades saudáveis. O tema de hoje também se conecta com esse assunto, mas sob outra perspectiva: o âmbito social e os ambientes em que estamos inseridos.

Mais adiante, em capítulos futuros, discutirei sobre o quanto o ambiente influencia diretamente a sua vida, sua mentalidade e sua autoestima. Porém, neste texto, quero me concentrar em algo específico: as convenções sociais e o quanto elas roubam a nossa autenticidade.

Quando somos crianças, somos naturalmente livres. Temos gostos próprios, diferenças, curiosidades, e tudo isso é genuinamente aceito por nós mesmos. Mas ao longo do caminho, enquanto crescemos e começamos a adquirir crenças e hábitos vindos da convivência social, passamos a nos ajustar para caber no grupo, para sermos aceitos, para coexistirmos em harmonia.

E sim, viver em harmonia é importante, sobretudo enquanto aprendemos a existir no mundo, como crianças e adolescentes. No entanto, quando chegamos à vida adulta, também é essencial reconhecer o que deixamos pelo caminho para conquistar essa harmonia.

Em diversos posts desse tema, já falei sobre autenticidade. Hoje, quero expandir esse olhar para refletirmos juntos: o quanto as convenções sociais podem minar nossa autoestima, apagar quem somos?


E o que quero dizer com: O que é socialmente aceito, na maioria das vezes, não é para você?

Eu quero dizer com essa frase, que podemos sim, nos encaixar em determinados momentos, eventos e ambientes sociais. E é importante sabermos ler os contextos, entender como se comunicar, como nos portar, e isso é ótimo para garantir harmonia ao convívio. Porém, o que não podemos é nos transformar em personagens para caber em qualquer lugar, apagando nossa individualidade como seres humanos.

Esse apagamento é, para mim, uma das maiores causas da baixa autoestima hoje.

Muitas pessoas não sabem quem são. Sentem que precisam se encaixar para serem validadas. Acreditam que só terão valor se forem parecidas com o grupo. Assim, deixam de se sentir relevantes no mundo, deixam de perceber que têm voz, porque nunca se olharam como indivíduos, apenas como parte de um coletivo.

O modelo educacional, e o modelo do mundo como um todo, sempre buscou formar “iguais”. Isso não significa que não possamos ter afinidades, gostos em comum, ou partilhar comportamentos semelhantes quando estamos em grupo. Mas é fundamental reconhecermos o que nos diferencia, porque, se não cultivarmos nossas diferenças, passamos a matar nossa autoestima aos poucos.

E autoestima não é só sobre o que pensamos de nós mesmos. Ela também está ligada à percepção do outro e ao impacto psicológico disso em nós. Por isso, precisamos aprender a equilibrar as duas coisas: compreender o mundo e, ao mesmo tempo, não nos dissolver nele.

Sim, algumas pessoas chamam esse ajuste de “máscara social”, uma forma estratégica de evitar atritos e conviver com mais leveza. Isso é natural. Mas é igualmente essencial que, ao estarmos sozinhos, saibamos quem realmente somos. Não podemos nos ajustar tanto a ponto de não nos reconhecermos mais.

O objetivo deste post é justamente esse alerta: nem tudo que é visto como uma convenção social é para você.

Vou dar um exemplo simples: imagine uma pessoa tímida. No mundo atual, já sabemos que existem personalidades diversas, introvertidas, extrovertidas e tudo entre esses extremos. Se essa pessoa entra em um ambiente de trabalho ou de convívio onde sua forma de ser não é compreendida ou respeitada, o problema não é ela, o problema é o ambiente.

Porque, muitas vezes, acreditamos que a maioria está certa apenas por ser maioria. O cérebro humano tende a usar números como prova. Mas, quando falamos de identidade, respeito e autenticidade, a maioria nem sempre está certa.

Outro exemplo importante é o das pessoas neurodivergentes. Muitas vezes, elas não se comportam de acordo com o que é socialmente esperado e isso não tem absolutamente nada a ver com falta de educação, desinteresse ou inadequação. É uma questão neural, biológica. Hoje já existe conhecimento científico suficiente para comprovar que cérebros neurodivergentes funcionam de forma diferente dos cérebros neurotípicos e, portanto, o comportamento, o ritmo, a comunicação e o raciocínio também são diferentes.

Se pessoas neurotípicas não conseguem compreender essa diferença, o problema não está na pessoa neurodivergente, mas sim na maioria que ainda insiste em interpretar o que é diferente como “errado”.

Eu falo isso com propriedade, sendo uma pessoa neurodivergente. Durante muitos anos, eu me senti inadequada, deslocada, “fora do padrão”. Sofria tentando forçar meu comportamento a caber dentro de expectativas sociais que nunca foram feitas para mim. Só quando compreendi o verdadeiro motivo por trás dos meus comportamentos — a diferença neural — comecei a perceber que: não existe nada de errado comigo. O erro estava na referência usada para me medir.

Hoje sabemos: pessoas neurodivergentes pensam diferente, possuem raciocínios diferentes e processam o mundo sob outra lógica. Portanto, é natural que não tenham a mesma visão, mentalidade ou formas de agir que pessoas neurotípicas têm.

No entanto, a maioria das pessoas neurodivergentes carrega marcas emocionais profundas. São pessoas que, ao longo da vida, foram repetidamente rejeitadas por detalhes mínimos, por sua forma de falar, de pensar, de ser, por interesses considerados “estranhos”, por diferenças que, no fundo, são apenas humanas. Carregam traumas ligados à rigidez social e à constante sensação de inadequação.

E, por isso, faço questão de alertar: não são apenas os neurodivergentes que sofrem com convenções sociais, pessoas neurotípicas também sofrem. Porque toda vez que um sistema dita como alguém “deveria ser”, todo aquele que não se encaixa sofre. A diferença é que alguns sofrem em silêncio, tentando se moldar, enquanto outros apenas cansam e se afastam.

O coletivismo, de maneira implícita, sugere que as pessoas devam ser parecidas, comportar-se de forma semelhante, pensar de maneira semelhante, existir em uma espécie de igualdade. Mas é fundamental compreender algo: essa igualdade nunca existirá. Nem em comportamento, nem em visão de mundo, nem em mentalidade. As pessoas são diferentes em inúmeros aspectos, biologicamente, neurologicamente, emocionalmente, socialmente e isso é natural. Veja que, quando menciono igualdade, não estou me referindo a aspectos econômicos ou de direitos sociais. Estou falando apenas da ideia de igualdade na personalidade.

Como mencionei anteriormente, é óbvio que, em determinados contextos sociais, precisamos ajustar o nosso comportamento ao ambiente. Isso faz parte da convivência em sociedade. Porém, existe uma linha muito tênue entre adaptação social saudável e descaracterização da própria identidade.

Quando deixamos nossa personalidade de lado, quando nunca fizemos nada além do que é socialmente aceito, quando esquecemos nossas diferenças em troca de pertencimento, pagamos um preço muito alto: a perda da autoestima.

Pode parecer algo pequeno, quase trivial, mas muitas pessoas passam por constrangimentos profundos simplesmente porque não conseguem seguir convenções sociais. Fazem comparações, vivem o pensamento: “Se todo mundo consegue ser assim, por que eu não consigo?”. E, quando esse encaixe se torna impossível, surge o sofrimento.

Esse constrangimento, quando acumulado, pode evoluir para algo muito mais grave: ansiedade social, depressão, sensação de inadequação, perda total de identidade. Porque a base emocional da autoestima está diretamente ligada à pergunta: “Quem eu sou?”

E, quando uma pessoa vive apenas performando socialmente para atender expectativas externas, uma hora a mente cobra. A conta emocional chega. É cansativo e exaustivo sustentar um personagem que não representa a sua essência.

Por falta de autoconhecimento, muitas pessoas seguem no automático. Sem perceber, constroem suas personalidades com base no que é conveniente para o grupo e não com base na própria verdade. E isso vai além do psicológico: afeta estética, escolhas, hábitos, estilo de vida.

Observe os grupos sociais: muitos têm o mesmo estilo de cabelo, o mesmo estilo de roupa, os mesmos hábitos, as mesmas opiniões. Cada grupo, cada microcultura tem um conjunto de regras implícitas sobre como você deve existir para ser aceito. E quando alguém rompe essas regras, quando uma pessoa ousa ser autêntica, não necessariamente “diferente demais”, apenas não idêntica, ela pode sofrer rejeição, constrangimento, perseguição e até linchamento social. Porque, para o coletivo, a autenticidade muitas vezes soa como uma ameaça, quase como um crime.

E quando alguém tem autenticidade muito fincada, quando a sua essência não se dilui, dificilmente um grupo a aceitará por completo. Grupos — para existir — precisam de adesão a uma ordem: comportamentos, estética, linguagem, narrativa. E quem não se adapta totalmente costuma ser excluído.

É por isso que tantas pessoas preferem se encaixar custe o que custar. Porque nada fere mais do que o sentimento de inadequação, de ser visto como alguém “fora do lugar”.


Porque antes de ser parte do mundo, você precisa ser parte de si.

O texto de hoje é um convite para parar de se colocar dentro de caixinhas, principalmente quando elas não representam verdadeiramente quem você é. Trata-se de criar pensamento crítico, reconhecer-se como indivíduo antes de tentar se encaixar em qualquer coletivo. É sobre voltar o olhar para dentro, identificar suas particularidades e fazer escolhas alinhadas com aquilo que realmente faz sentido para você.

Muito se fala em empoderamento dentro de grupos sociais, mas o empoderamento verdadeiro é simples: saber quem você é, compreender o que você gosta e ter coragem de fazer o que deseja. Não existe atitude mais poderosa do que isso. Ainda assim, muitas pessoas continuam vivendo em função das expectativas de um grupo, e não dos próprios desejos. É esse movimento que tem minado a autoestima de tanta gente: a ausência de autoconhecimento. Como saber o que queremos, se nunca paramos para nos perguntar?

Este texto tem como objetivo lançar uma luz sobre esse olhar para si: com mais carinho, mais questionamento e mais intenção. Não há problema em querer pertencer, em socializar, em ser parte de um grupo, isso é humano e é saudável. Mas abdicar totalmente de quem você é, deixando sua identidade de lado para ser aceito, é algo que cedo ou tarde cobra um preço alto.

No próximo post dsobre autenticidade, quero trazer um novo ponto de reflexão: o poder dos ambientes, e como eles moldam, transformam ou até destroem a nossa vida. Continue comigo para seguirmos nessa jornada de questionamento e construção da autenticidade.

 

No post de hoje, quero continuar nossa reflexão sobre controle e autenticidade. Anteriormente, falei sobre a ilusão do controle que podemos ter sobre nossa vida e a vida das outras pessoas, e sobre a importância de quebrar o ego para abrir espaço à autenticidade.

Hoje, o tema é aceitar o mundo como ele é. Isso significa acolher tanto suas perfeições quanto suas imperfeições.

Essa reflexão também tem muito a ver com frustrações. Quando nascemos e crescemos neste mundo, somos educados de uma maneira que nos torna bastante críticos, e até rebeldes, em diversos aspectos. Isso não é um problema por si só. O problema surge quando acreditamos que nosso “eu” é superior a ponto de achar que podemos submeter tudo e todos à nossa vontade. E isso, na prática, é impossível.

Essa expectativa de controle é, inclusive, uma das principais causas das frustrações que sentimos. Afinal, vivemos em um mundo com uma enorme pluralidade de culturas, valores e jeitos de ser. Por que, então, insistimos na ideia de que podemos mudar o que já existe?

Aceitar o mundo como ele é não significa conformismo. Significa reconhecer a realidade, abraçar suas nuances e, a partir daí, escolher nossas ações de maneira mais consciente e autêntica.


Relato pessoal: aprender a mudar de lugar quando não cabemos mais

Eu nunca fui conformista. Sempre fui rebelde. O mundo para mim era cheio de regras que considerava inúteis, mas, ao mesmo tempo, também não queria moldá-lo, porque sabia que isso seria impossível. Desde cedo, fui ensinada pelas negativas da vida. Então, a única coisa que eu podia controlar era o que dizia respeito a mim mesma.

Uma coisa que sempre me deixava inconformada era o modo como a criação feminina acontecia. Quando criança, eu pensava: por que nós, meninas, não podíamos correr e brincar como os nossos primos? Por que eu precisava usar brincos, mesmo quando doía e inflamava as minhas orelhas? Por que eu tinha que ficar quieta e não podia ser mais agitada ou brincar à vontade?

A criação feminina foi muito cruel para mim, porque, como criança, eu achava que poderia fazer tudo. Esse é apenas um dos aspectos que muitas crianças, provavelmente todas, sofreram. Na infância, somos submetidas a posições sociais impostas e muitas vezes nos sentimos moldadas por elas.

Já na vida adulta, mesmo sendo rebelde e não me conformando com a realidade, isso me trazia mais desafios. Algumas coisas eu aceitava; outras, não. Por exemplo, podia me conformar com certos comportamentos de pessoas, mas não com processos de trabalho ou regras de um emprego que não faziam sentido para mim. E, mesmo assim, muitas vezes eu continuava ali, dentro daquela estrutura.

Até que um dia percebi: a única coisa que eu realmente podia fazer era me mudar de lugar. Se eu não me sentia bem em determinadas amizades, empregos ou ambientes, como poderia mudar toda uma estrutura ou o modo de ser de outra pessoa? Nem tudo é sobre nós e nem tudo está sob nosso controle.

Às vezes, precisamos começar em empregos ou situações que não fazem sentido para a vida que queremos ter. Mas isso não significa abdicar da nossa identidade. Pelo contrário: muitas vezes, é um passo necessário para a nossa sobrevivência, enquanto criamos estratégias para o próximo passo.

A aceitação, então, é uma habilidade que precisa ser treinada. Não se trata de se moldar ao ambiente e perder a autenticidade, mas de desenvolver jogo de cintura para atravessar certas situações sem renunciar a quem você é.


Aceitar o mundo não é conformismo

Diante das minhas observações sobre o mundo, tenho visto muitas pessoas inconformadas. E eu entendo: de modo geral, o inconformismo vem de problemas sociais reais. É um inconformismo justo, pois muitas vezes essas pessoas simplesmente não aceitam a realidade que lhes foi imposta.

Mas existe uma linha tênue. Quando você utiliza suas frustrações, suas dificuldades ou as injustiças que enfrenta para atacar outras pessoas ou praticar atos imorais, porque não aceita o mundo como ele é, você não está se tornando alguém melhor. Você não está abrindo espaço para a sua autenticidade; você está dando lugar à fúria.

Quando pensei em escrever este post sobre aceitar o mundo como ele é, refleti muito. Aceitar o mundo não é conformismo. Sou totalmente contra a ideia de alguém se conformar com uma situação em que não se sente bem ou confortável. Aceitar o mundo é, na verdade, entender como ele funciona e desenvolver jogo de cintura para atravessar os problemas — porque eles sempre existirão, de uma forma ou de outra.

No mundo, haverá imperfeições, pessoas falhas, discursos ruins e negativos. Mas, ao mesmo tempo, percebo que aqueles que têm discursos positivos, que promovem debates construtivos e buscam transformar a realidade, muitas vezes não são ouvidos, por conta daqueles que semeiam caos.

A história mostra que muitos grupos, como mulheres, negros ou pessoas com deficiência, enfrentaram séculos de opressão. Hoje, vemos, mesmo que pouco, algum progresso, e acredito que o futuro trará avanços ainda maiores para diversos grupos. Isso acontece porque essas pessoas não se conformaram, mesmo enfrentando jornadas difíceis para reconquistar direitos que lhes pertencem.

Então, quando falo sobre aceitar o mundo como ele é, por mais contraditório que pareça, quero dizer que se trata de não bater de frente o tempo todo. É saber agir com moderação e com estratégia, cuidar de si, para que o impacto das dificuldades seja menor.


Estoicismo e autenticidade: encontrando harmonia no presente

No estoicismo, a ideia de aceitar o mundo como ele é significa compreender que o universo é regido pela Logos, uma ordem racional. Embora possamos controlar nossas ações e reações, não temos controle sobre muitos eventos externos.

Essa aceitação se baseia na harmonia com a natureza e na concentração na virtude interna, em vez de se prender à busca de resultados externos que estão fora do nosso alcance. O estoicismo enfatiza que devemos focar em controlar nossas ações e reações, e não tentar controlar eventos externos, porque isso, além de nos distrair, muitas vezes não leva a nada ou demora muito mais do que gostaríamos.

O estoicismo também incentiva viver no presente, concentrando-se no momento atual, ao invés de se preocupar excessivamente com o passado ou o futuro, pois essas preocupações trazem sofrimento que não está sob nosso controle.

Assim, essa busca de mudar o mundo, por mais justa e verdadeira que seja — esse inconformismo que mencionei anteriormente, e com o qual concordo — pode gerar estresse e frustrações para pessoas que ainda não desenvolveram plenamente sua autenticidade. É o mesmo ponto que tratei na edição anterior, sobre a ilusão do controle.

Embora algumas pessoas e grupos estejam conseguindo mudar mentalidades e impactar o mundo, essas conquistas muitas vezes vêm acompanhadas de muito esforço e fatores estressantes que poderiam ser atenuados se a sociedade soubesse dialogar.


Entre opiniões e preconceitos: o desafio da inteligência emocional

Hoje em dia, existe um grande problema relacionado à aceitação das diferenças. Muito se fala sobre aceitar diferenças, mas, na prática, isso nem sempre acontece. Por mais que se discuta a aceitação das diferenças físicas, um debate legítimo e necessário, atualmente há uma grande intolerância das pessoas em relação a diferenças culturais e ideológicas.

Percebo que pouco se fala sobre diferenças ideológicas e de opinião e como elas têm se tornado alvo de preconceito. Falta compreender que a diversidade de pensamentos é tão natural quanto a diversidade racial, religiosa ou cultural. O coerente para o ser humano é buscar essa aceitação.

Por mais que você não concorde com os princípios ou o modo de vida de outra pessoa, isso não significa que a vida dela não faça sentido. Cada indivíduo busca autenticidade e vive de acordo com o que considera certo para si. Se para uma pessoa faz sentido, por que julgar, criticar ou segregar, simplesmente porque não se encaixa na nossa própria visão de mundo?

Lidar com essas diferenças exige um nível elevado de inteligência emocional. E, infelizmente, muitas pessoas não querem desenvolver essa habilidade. Preferem debater para criticar, e não para aprender.


Aprender a se relacionar: consigo e com os outros

E, para concluir, eu gostaria de falar sobre aprender a se relacionar consigo mesmo e com os outros. Muitas pessoas não sabem se relacionar com os outros porque não sabem se relacionar consigo mesmas.

Essa compreensão de si, essa busca por autoconhecimento, é essencial para nos entendermos e, a partir daí, conseguirmos aceitar os outros e suas diferenças. Existe um nível muito grande de ignorância emocional. No passado, havia outras segregações mais evidentes; hoje, parece que a segregação se manifesta fortemente de forma ideológica e intelectual.

Muitas pessoas não se compreendem e não conseguem entender que alguém pode ser feliz vivendo de uma forma diferente da que elas escolheriam, e isso é totalmente compreensível, considerando a pluralidade de diferenças entre os seres humanos. Não conseguir compreender isso de forma lógica revela um nível de incapacidade emocional significativo, e essa falta de inteligência emocional tem adoecido muitas pessoas.

Portanto, eu questiono: será que o problema de fato é que não estamos aceitando o mundo como ele é, por que não aceitamos a nós mesmos?

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A premissa básica da autonegação se conecta diretamente ao que escrevi nos capítulos anteriores, sobre os traumas de abandono e rejeição. Muitas pessoas vivem de uma forma em que negam a si mesmas a própria felicidade.

E quando falo em autonegação, não significa que essas pessoas estão se negando tudo. O que acontece é que elas estão negando justamente o essencial, aquilo que poderia levá-las de volta ao seu próprio centro.

A autonegação é, no fundo, um processo de renúncia dos nossos desejos mais profundos. Geralmente, esses desejos não são os mundanos, mas desejos espirituais e individuais. Porém, devido ao inconsciente coletivo, acabamos anulando esses desejos para nos encaixar em um grupo, em uma sociedade ou em determinado contexto. Fazemos isso para não nos sentirmos sozinhos ou invalidados.

Essa negação de si acontece em situações simples. Vou dar um exemplo: você está em um grupo — pode ser religioso, estudantil, político, um grupo sobre hobbies ou de qualquer outra natureza. Para se sentir aceito, você sente a necessidade de concordar com aquele grupo, de seguir o que todos seguem. E, nesse movimento, você evita trazer à tona aspectos mais profundos de si. Prefere falar apenas do que coincide com o que é aceito ali dentro.

Você acaba deixando de expressar desejos, opiniões ou ideias que poderiam soar “impróprias” ou “estranhas” para aquele grupo. E, para caber ali, você anula partes suas.

Talvez, enquanto lê isso, você esteja exatamente nessa situação: em um grupo com o qual não concorda 100%, mas ainda assim evita se posicionar. Você não quer desagradar, nem ser o “excluído”. Quer que os outros fiquem felizes com você, mesmo que isso custe a sua própria autenticidade.

Mas já parou para pensar que talvez todos ali também estejam anulando partes de si mesmos, apenas para se encaixar no mesmo molde? Para caber no mesmo rótulo ou estereótipo?

E, afinal, o que existe de errado em ser diferente?

Quantas vezes você já teve uma opinião ou ideia válida, mas se calou porque achou que o grupo não aceitaria? Quantas vezes percebeu que até poderia contribuir com algo novo, mas preferiu silenciar, com medo de parecer “disruptivo demais”?

Essa repetição de silêncios e renúncias vai, aos poucos, minando a nossa energia. E, quando percebemos, já estamos vivendo uma tristeza silenciosa, resultado direto de negar a nós mesmos quem realmente somos.

Você vai ficando triste. Às vezes até parece que está satisfeito, porque, de certa forma, está tudo bem: as pessoas te aceitam do jeito que elas acham que você é. Está todo mundo confortável, o grupo flui.

Até que um dia você decide mostrar uma parte da sua autenticidade. E é nesse momento que as pessoas começam a apontar o dedo para você. Dizem que você está errado em pensar ou agir daquela forma. Mas eu te digo: você não está errado quando mostra quem você é. O que acontece é que, naquele instante, você deixa de ser um produto do grupo. Rompe a máscara do encaixe e revela a sua essência.


Entre rótulos e ideologias, o desafio de sustentar a própria autenticidade

Uma vez, ouvi uma psicóloga dizer uma frase que nunca esquecerei: “Quanto mais você se torna autêntico, mais esquisito você parece para a sociedade.”

E isso é verdade. Porque a sociedade, de forma geral, está acostumada a se organizar em grupos. E grupos sempre exigem rótulos. Para se encaixar, é preciso vestir uma etiqueta, caber dentro de uma caixinha.

Veja alguns exemplos: existem os grupos de fãs de bandas, como os roqueiros. Os grupos de quem pratica esportes, como surfistas ou corredores. Os grupos religiosos, como católicos, evangélicos, espíritas. Os grupos de investidores, empresários, e até grupos de ativistas. E dentro de cada grupo há regras ditas e não ditas. Se uma pessoa católica, por exemplo, resolve compartilhar novos conhecimentos sobre outra religião dentro da comunidade dela, é provável ser julgada, até rejeitada. Porque aquela ideologia foi estabelecida para manter todos dentro de um mesmo padrão.

E aqui entra a questão das ideologias. Eu, particularmente, não concordo com elas. Porque, no fundo, ideologia nada mais é do que um sistema de ideias que nasceu dos interesses de um grupo de pessoas. Muitas vezes, ideias que foram criadas há séculos e transmitidas de geração em geração. Só que, quando você adere a uma ideologia, ela não é a sua ideia. Você “compra” o pacote pronto. Pode até dizer: “Quero isso para mim”. E não há problema algum nisso. O que eu questiono é: você parou para analisar se essa ideologia realmente faz sentido para você?

Se fizer sentido, ótimo. Mas também é preciso entender que aquilo que faz sentido para você pode não fazer sentido para o outro. Por isso, eu prefiro falar em ideias do que em ideologias. Porque ideias são soltas, podem girar em diferentes contextos, se adaptar, evoluir e progredir. Ideias são vivas.

Quando você se abre às ideias, pode analisá-las à luz da sua autenticidade e decidir o que realmente vale a pena. Diferente de se prender a um conjunto ideológico que muitas vezes foi moldado em épocas de regimes rígidos ou até autoritários.


Militância, pertencimento e o custo psicológico da violência ideológica

O que eu tenho visto, dentro desse contexto de mundo polarizado, é que as pessoas subverteram a ideia de moral, trazendo conceitos ideológicos que podem ter como base tanto a religião quanto outras formas de ideologia. O conceito de militância, que é a prática de defender uma causa de forma ativa, passou a ser distorcido, transformando-se em um ataque pessoal a todos à sua volta.

O que vemos hoje na internet, são pessoas que entram em grupos nos quais precisam se sentir pertencentes, onde acreditam que seus argumentos serão validados. Elas precisam pertencer a esses grupos para não se sentirem sozinhas. Nesse contexto, para pertencer, acabam comprando a ideologia sem analisar ou estudar de fato sobre ela. Seja política, religiosa ou qualquer outra. Ainda assim, militam ativamente na internet para defendê-la, porém com um discurso e uma oratória extremamente violentos.

Essas pessoas atacam outros grupos com o intuito de mostrar que têm um posicionamento moralmente correto. E dentro do próprio grupo ideológico, não se pode contestar nada nem ter pensamento crítico. Pois, se alguém se destacar ou apresentar uma opinião que fuja da linha predominante, mesmo estando em concordância geral com a ideologia, também será vítima e alvo de ataques de comunicação violenta.

Veja que, em nenhum momento, eu digo que você, que faz parte de algum grupo ideológico, não pode expressar o que acredita ou opinar nas suas redes sociais. Muito pelo contrário, esse é o seu direito. Porém, o que você não pode e não deve, é atacar outras pessoas com argumentos violentos, com a intencionalidade de ferir o sujeito. Dentro de uma discussão, a intenção sempre deveria ser atacar o argumento, não a pessoa.

Um livro que eu recomendo, e que está sendo amplamente falado, é Comunicação Não-Violenta, do autor Marshall B. Rosenberg. Essa obra apresenta uma abordagem voltada para expressar e ouvir os outros de forma empática, honesta e sem julgamentos, com foco nas necessidades e nos sentimentos. Sua premissa é fortalecer os relacionamentos e promover a resolução de conflitos.

Com tudo isso que exemplifiquei, ao falar sobre como a militância nas redes sociais tem se tornado destrutiva, até mesmo para as próprias pessoas que a praticam, quero destacar que não apenas os praticantes sofrem, mas também aqueles que fazem parte dos grupos correspondentes. Nesses ambientes, cria-se uma ideia viciosa de segregação e autonegação, na qual as pessoas sentem que precisam concordar com a ideologia para se sentirem apoiadas e não serem atacadas. Isso acontece porque, dentro desses grupos, estabelece-se um consenso do que é considerado moralidade.

E não me refiro aqui a um grupo específico, mas a diversos grupos. Hoje, vivemos em um país polarizado, e essas comunicações violentas estão acontecendo em diferentes contextos. Pessoas estão sendo psicologicamente prejudicadas — tanto os que praticam a comunicação violenta quanto os que são mais passivos, os que apenas recebem e escutam.

Ainda sobre essa à questão dos grupos: essa vontade de pertencer é perigosa. Porque, em nome do pertencimento, muitas vezes nos anulamos por completo. Deixamos de fazer o que realmente queremos. Perdemos o contato com o nosso eu e deixamos de explorar a nossa história, os nossos talentos, os nossos desejos. Tudo para caber em um molde que talvez nem tenha nada a ver conosco.

Por isso, este capítulo sobre parar de negar a si mesmo é um convite para deixar de entrar em caixas que não são suas. Para parar de fazer coisas que você não aguenta mais fazer.

E também para começar a refletir antes de assumir compromissos ou papéis: 

“Será que isso é para mim? Será que não vão me obrigar a viver algo que não quero?”


Relato pessoal: Manter-se fiel a si mesmo em um mundo que insiste em nos moldar

Talvez você não se identifique totalmente com o meu relato, porque eu não me vejo exatamente dentro do mesmo contexto da maioria. Sim, eu me neguei por muito tempo, mas, como contei em outros posts, eu sempre fui muito decidida. Desde a infância, eu sabia quem eu queria ser e o caminho que queria trilhar.

Mas uma coisa sempre me chamou atenção: as tentativas de controle. Desde criança, eram aquelas perguntas constantes: “Por que você é assim?”, “Por que você escolhe isso?”, “Por que não brinca como as outras crianças?”. Até aí, tudo bem. Mas, quando cresci, comecei a perceber como isso se tornava ainda mais intenso e perigoso.

No trabalho, por exemplo, na cidade onde nasci, havia um estilo de musical muito popular, que praticamente todo mundo ouvia. Não é um estilo que eu aprecio e me identifico, mas as pessoas achavam estranho eu não gostar. Isso se repetia nas festas, nos carnavais, em convites sociais — onde eu, mais introvertida, preferia ficar em casa estudando ou cuidando das minhas coisas. A insistência para que eu me encaixasse naquele círculo era cansativa.

E aqui é importante dizer: não era porque eu não gostava das pessoas, ou não queria estar com elas. Eu apenas tinha outros interesses. Só que, quando você não segue o padrão, passa automaticamente a ser vista como “a do contra”, “a esquisita”, “a diferente”. E eu aceitei esse rótulo, porque para mim era mais importante ser eu mesma do que me forçar a viver algo que não fazia sentido.

Mas ao longo da vida também enfrentei situações que me afetaram profundamente e me fizeram negar partes de mim. Também já fiz muito e até passei anos me calando para não desagradar.

Já contei no capítulo 2 sobre os impactos da pobreza. E esse ponto é crucial. A pobreza cria um estigma: você só pode fazer o que todos daquele mesmo grupo fazem. Há uma categorização invisível, que dita até onde você pode ou não pode ir.

Mesmo quando existem opções gratuitas, como visitar um museu ou participar de um evento cultural, muitas vezes esses ambientes são vistos como “não pertencentes” a quem vem da pobreza. É como se você não tivesse o direito de estar ali, porque foi “feito” para viver dentro de um padrão: trabalhar em sub empregos, repetir a vida dos seus pais e não prosperar.

Não acredito que as pessoas façam isso de forma consciente. Na verdade, vem da falta de autoconhecimento. E o autoconhecimento está intimamente ligado à inteligência emocional, que é uma competência a ser desenvolvida, não um talento nato. Quem não busca esse desenvolvimento dificilmente alcança.

Outra questão, que também é uma forma de tentativa de controle e que mencionei acima ao falar sobre militância — e que sei que não acontece apenas comigo, mas também com muitas outras pessoas que provavelmente estão lendo este texto — é que, nesse contexto de mundo polarizado em que vivemos, diversas pessoas tentaram me convencer a assumir determinado lado ou a votar em determinado partido político nos quais eu não acreditava. Veja bem, ser olitizado não é sobre ter um partido em que você acredita religiosamente (não se trata de religião ou um time de futebol). Trata-se, na verdade, de compreender, de forma estratégica, qual candidato tem mais aptidão para o cargo que está sendo disputado. Afinal, estamos falando de um cargo que exerce autoridade. Eu não voto por ideologia; meu voto é puramente estratégico, baseado na análise de quem está realmente apto para ocupar aquele cargo. Então, para que alguém me convença de alguma coisa, no mínimo, essa pessoa precisa me apresentar argumentos lógicos, e trazer informações sobre economia, curriculo do candidato, ou me mostrar algo que eu não tenha percebido. Trazer apenas a ideologia e percepções emocionais do candidato, sem fundamentos históricos e qualquer base factual, para mim não faz sentido nenhum.

Ainda assim, pessoas que não tinham esse embasamento tentaram me convencer com ataques pessoais, o que para mim foi algo extremamente violento. Eu me senti profundamente atacada, porque atualmente, quando as pessoas militam, não atacam os argumentos, mas a pessoa em si. Querem te vilanizar, querem te colocar no lugar de “desumano”. E, se você não tiver firmeza de caráter e os pés fincados no chão, pode desabar, pode até entrar em conflitos internos por conta disso.

Sempre entendi que nós, como seres humanos, temos a responsabilidade e o direito de decidir o que é melhor para a nossa vida em todos os aspectos, desde que sejamos éticos.

Dentro desse contexto, eu não conseguia compreender por que algumas pessoas que eu considerava meus amigos tentaram me convencer a fazer algo que eu não concordo, ultrapassando assim os meus limites, com sucessivas tentativas de controle e coersão. Eu não iria negar a mim mesma, nem negar todo o conhecimento que adquiri, apenas para satisfazer uma ideia egocêntrica e ideológica de outras pessoas.

O que quero que você entenda com esse relato é que você pode buscar conhecimento por si mesmo, pode entender o que acha que é interessante para você, sem se submeter ao que os outros julgam como moralmente correto. O importante é ter autoconhecimento e firmeza de caráter para saber que está fazendo o que é certo, sem precisar se encaixar na caixinha que os outros tentam impor.

Esses são relatos simples, mas importantes, que reforçam que não precisamos viver para nos moldar às expectativas alheias. Sempre que tentamos nos encaixar, inevitavelmente, estamos negando alguma parte de nós mesmos.


As raízes da autonegação

Já que sabemos que a autonegação nasce da necessidade de agradar o outro, de se encaixar e de ser aceito, muitas vezes em detrimento dos próprios desejos e necessidades, vamos agora entender um pouco mais sobre suas causas.

Baixa autoestima

A pessoa pode não se sentir digna, acreditar que não tem valor e, por isso, acaba sempre se colocando em posição de valorizar os outros e fazer o que eles querem. Nesse processo, vai negando os próprios desejos e vontades.

Crenças negativas

Por exemplo, quando alguém é ensinado à servidão. A pessoa foi educada para servir, para ser a salvadora, para sempre ajudar os outros e se colocar em segundo plano. Esse tipo de crença pode levá-la a se negar constantemente.

Busca por validação

A necessidade constante de aprovação geralmente nasce de traumas de abandono ou rejeição. A pessoa busca se validar por meio dos outros e, em consequência, acaba se negando para atender expectativas externas.

Contextos religiosos e ideológicos

Como já mencionei acima, muitas vezes as pessoas compram ideologias de servidão e aceitação do que é dito por um grupo, sem poder contestar. Assim, ficam presas dentro desse contexto, vivendo em autonegação.

Além desses pontos, existem diversos outros motivos que levam as pessoas a se colocarem nesse lugar de autonegação.


Então, como sair da autonegação?

Diante de tudo isso, surge a pergunta: como podemos sair da autonegação? O que podemos fazer para parar de negar a nós mesmos aquilo que nos é merecido?

  1. Desenvolver autoconsciência
    Precisamos entender quem somos e nos aceitar com nossas falhas e imperfeições. É necessário parar de acreditar que somos vítimas o tempo inteiro, pois todos nós temos sombras e limitações, como qualquer outro ser humano. Aceitar essas falhas é o primeiro passo para trabalhar em nós mesmos e caminhar em direção a ser a pessoa que admiramos, como já mencionei antes, a pessoa que realmente queremos ser.

  2. Reconhecer os sentimentos
    Observar e compreender os próprios sentimentos. Sempre que surgir a necessidade de agradar alguém ou buscar validação, é importante identificar quais emoções estão por trás dessas atitudes.

  3. Colocar-se em primeiro lugar
    Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis: deixar de viver apenas para o outro e escolher fazer por você. Isso tira um peso enorme das nossas costas. Claro, há exceções — como cuidar de uma criança, de um parente ou de alguém em situação de vulnerabilidade (mas essa realidade não precisa ser permanente). Mas, fora isso, lembre-se: as outras pessoas não são sua responsabilidade. Empatia é fundamental, mas até ela tem limites. Exagerar na empatia pode causar transtornos e não significa que você seja menos humano ou solidário por priorizar a si mesmo.

  4. Buscar ajuda profissional
    A terapia,seja psicanálise ou TCC, pode ajudar a compreender comportamentos, mudar padrões, lidar com traumas e gatilhos, além de desconstruir crenças de autonegação e de necessidade de validação. Esse é um passo essencial para viver de forma mais saudável.

  5. Sair de grupos que anulam sua identidade
    Esse é, provavelmente, um dos pontos mais difíceis, mas também dos mais libertadores. Muitos grupos arrastam as pessoas para baixo sem que elas percebam, moldando-as lentamente para se encaixar em padrões impostos. Com o passar do tempo, é comum que alguém deixe de se reconhecer, vivendo de maneira despersonalizada, como reflexo daquilo que o grupo esperava. É preciso observar se os grupos que você frequenta realmente fazem sentido para a sua vida e se contribuem para o seu crescimento pessoal.

Nesse post, trouxe bastante informações, não apenas os porquês da autonegação, mas procurei esmiuçar em detalhes, fazendo referência ao que vem acontecendo na atualidade. Minha intenção é levantar questionamentos que talvez estejam acontecendo com você neste exato momento.

Pode ser que, ao ler, você perceba que nada disso faz sentido para a sua vida — e está tudo bem. A proposta do post não é apontar o que é certo ou errado, mas sim provocar reflexão.

Nos próximos textos, vou continuar explorando o tema da autenticidade, e espero que você siga me acompanhando nessa jornada.

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Oi, sou Nick!

Sou escritora, formada em Licenciatura em Letras e tenho me aprofundado em Sociologia e Filosofia. Atualmente, atuo na área de Marketing, explorando estratégias, comunicação e comportamento humano. Minha trajetória é guiada pela busca constante por conhecimento, reflexão crítica e conexão entre ideias, pessoas e contextos sociais.


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