Este texto talvez seja um dos mais importantes desta série de conteúdos. De tudo que aprendi e compreendi sobre autenticidade, nada é mais crucial do que a escolha adequada dos ambientes.
Entenda: os ambientes não apenas moldam quem você é no dia a dia, mas também têm o poder de potencializar ou corroer suas qualidades. Você pode se tornar uma pessoa ainda melhor, ou, ao contrário, ser influenciado negativamente. O ambiente exerce uma força gigantesca sobre cada indivíduo, pois representa o coletivo.
Sabe quando seus pais dizme que algumas pessoas são “más influências”? Muitas vezes, eles podem estar certos. Pela experiência, eles já viveram o suficiente para saber que há pessoas que não conseguem conduzir e orquestrar um ambiente de forma saudável e isso afeta diretamente quem está inserido ali. Essa, aliás, é a verdadeira força de um ambiente: ele molda comportamentos.
O ditado “quem anda com porcos, farelos come” exemplifica de forma absoluta a dinâmica social: o meio influencia quem você se torna. Se você está cercado por pessoas que valorizam estudo, ética, ações construtivas e princípios, naturalmente sentirá essa pressão positiva e se alinhará a ela. Por outro lado, se o ambiente é dominado por práticas negativas, discursos destrutivos ou até comportamentos criminosos, você também pode ser levado a adotar tais condutas.
Não adianta afirmarmos que não somos influenciáveis. Se convivemos com maus hábitos, cedo ou tarde, seremos tentados a reproduzi-los. Às vezes, fazemos isso até como uma estratégia de sobrevivência, para não nos sentirmos inadequados. Entender que nós como seres humanos, possuimos essa sombra, é extremamente útil para nos tornarmos mais maduros.
Sabe quando dizem que uma pessoa é mudou porque passa a agir de forma diferente? Isso geralmente ocorre porque ela foi inserida em um ambiente que pressionava sua adaptação. E, nesse processo, outros podem interpretar mudanças como “influência”. Todos nós somos, de certo modo, influenciáveis, dependendo do ambiente em que estamos. Por isso, a escolha do espaço em que vivemos é tão decisiva.
Ambientes negativos constroem narrativas, dinâmicas e até ataques sutis à nossa autenticidade: opiniões passivo-agressivas, piadas com afinetadas, olhares de julgamento… tudo para que você se encaixe. E, diante dessa pressão, a verdade é que só existem duas saídas: ou você se alinha ao grupo, ou você vai embora.
É exatamente por isso que é muito mais saudável se afastar de pessoas com hábitos que não condizem com a vida que você deseja construir, pessoas indisciplinadas, grupos que normalizam comportamentos autodestrutivos, ambientes onde irresponsabilidade e apologia a atitudes nocivas são tratadas como norma.
Nós somos, sim, uma média das pessoas com quem convivemos. E a frequência do ambiente, seja ela elevada ou baixa, inevitavelmente nos impacta.
Gosto muito de algo que a filósofa Lúcia Helena Galvão sempre diz: “é importante depurar o gosto.”
Quando frequentamos ambientes que nos puxam para baixo, que provocam queda de hábitos, perda de energia, ausência de ética e responsabilidade, seremos influenciados, mesmo que não participemos ativamente. Estando ali, estamos absorvendo.
Da mesma forma, é impossível não ser transformado quando entramos em espaços de alta vibração: ambientes com bons hábitos, cultura do respeito, estética harmoniosa, músicas suaves, convivência ética.
Nós nos refinamos quando o ambiente nos eleva.
Por isso, depurar o gosto é essencial para a qualidade de vida.
E quando falo de “gosto”, não me refiro apenas ao gosto estético superficial, mas à escolha consciente por tudo aquilo que é harmônico, íntegro, autêntico, alinhado com nossos valores. Porque o gosto é, também, uma expressão ética.
Para resistir à força do ambiente, é necessário ter uma mente autêntica e bem estruturada. A pressão é comparável a uma força gravitacional: opressora e constante. E não se trata de uma manipulação deliberada; muitas vezes, a força do ambiente decorre de padrões socialmente aceitos por cada grupo.
Cada comunidade possui suas ideologias e normas implícitas. Se você não se enquadra nesses padrões, a pressão se torna intensa, seja para seguir um caminho virtuoso ou para ceder a práticas negativas.
Vamos destrinchar mais profundamente essa relação entre ambiente, autenticidade e escolhas individuais.
A autenticidade não resiste onde o ambiente a sufoca
Praticamente tudo o que escrevi nos posts anteriores foi para chegar a este ponto: a importância de reconhecer o quanto é difícil preservar a própria autenticidade em ambientes que divergem do que você realmente deseja.
Muitas vezes, o ser humano nasce em um contexto que, ao longo do crescimento, percebe que não representa quem ele é. Como mencionei no post sobre os impactos da pobreza, às vezes crescemos em ambientes barulhentos, onde comportamentos e crenças prejudiciais são normalizados. Em outros textos, falei sobre traumas de abandono e rejeição, sobre o quanto desenvolvemos, desde a infância, um sistema de crenças que precisamos desconstruir para nos tornarmos autênticos. Para isso, é necessário confrontar pensamentos e padrões que não funcionam para nós.
O ambiente exerce uma força imensa nesse processo. Se você está cercado por pessoas que validam pensamentos de abandono ou reforçam padrões limitantes, é extremamente difícil quebrar essas barreiras. No post sobre não aceitar a mediocridade, discuti como certos grupos socializam a ideia de que devemos nos contentar com pouco, que escolher demais é inútil. Mas, se você acredita que merece mais, está divergindo da norma desse grupo, e a pressão para que você se alinhe será constante. Eles sempre terão argumentos para desacreditar suas escolhas, questionar seus padrões e tentar rebaixar suas expectativas.
Essa força do ambiente é evidente quando você muda de contexto. Ao sair de um espaço que não fazia sentido para você, pode perceber mudanças internas: ao rever pessoas antigas, muitas vezes ouve comentários como “Você mudou, nem lembra mais como era antes”. E é verdade: você mudou porque não ressoa mais com aquele ambiente.
O impacto de um ambiente negativo é enorme. Se você permanece em um contexto que puxa você para baixo, será constantemente influenciado por crenças limitantes alheias: ouvir todos os dias que algo ruim vai acontecer, que você não merece, que deveria se contentar com pouco, acaba criando hábitos mentais que reforçam essa narrativa. A consequência é a normalização da mediocridade e a internalização da sensação de que o esforço pode não levar a lugar algum — e isso não é falha sua, é um efeito direto do ambiente.
O ambiente, portanto, molda não apenas nossas escolhas, mas também nossa autoestima e nossa capacidade de ser autêntico. Escolher bem o espaço em que você vive é, muitas vezes, tão importante quanto qualquer outro esforço de desenvolvimento pessoal.
Relato pessoal: Permanecer fiel a mim mesma, apesar da força do coletivo
Sempre tive ambições diferentes e busquei mudanças. Desde cedo, dentro da minha família, eu gostava de experimentar coisas novas, de alterar o ambiente, de conhecer novas experiências. O cotidiano, para mim, nunca parecia suficiente. Eu sempre fui curiosa e inquieta.
No entanto, as pessoas ao meu redor diziam coisas como “você nunca está satisfeita” ou “deveria se contentar”. Meu ambiente familiar exercia muita pressão, e em determinado momento comecei a acreditar que talvez fosse melhor me conformar, diminuir minhas ambições e não sonhar tanto, já que tudo parecia difícil e escasso.
Apesar disso, eu possuía uma força interna: sempre fui automotivada e, mesmo sentindo a pressão do ambiente, resistia, inicialmente de forma inconsciente, depois de forma cada vez mais consciente. Eu me mantive firme em relação aos meus sonhos, mesmo diante da pressão para me adequar e diminuir minhas expectativas.
Esse processo mostra que, mesmo uma pessoa automotivada, é difícil manter a autenticidade e o compromisso consigo mesma. O ambiente tem um peso enorme: ele aprisiona, traz crenças complexas e enraizadas que nos limitam. E muitas vezes, não é culpa das pessoas, mas sim da própria natureza do ambiente, que exerce resistência e dificulta que você siga o que realmente deseja.
Como podemos passar de um ambiente que não nos faz bem para outro que esteja alinhado com o que desejamos?
Primeiro, é importante entender que existem ambientes bons. Você pode, inclusive, estar em um ambiente que é considerado bom para muitas pessoas, mas que, para você, não faz sentido. Por exemplo, você pode estar em um bom ambiente de estudo ou trabalho, mas decidir que quer uma vida mais pacata: morar no interior, plantar, cuidar de animais, ter uma rotina mais tranquila. Mesmo sendo um ambiente positivo, ele não está alinhado com os seus objetivos ou estilo de vida.
Quando decidimos ir em direção a um novo ambiente, mesmo que esse novo lugar seja igualmente bom, surge resistência. As pessoas que permanecem no ambiente antigo tendem a não aceitar bem essa transição. Em grupos, o coletivo busca harmonia. Essa harmonia, muitas vezes inconsciente, se baseia na manutenção de padrões semelhantes de comportamento e pensamento. Mudanças individuais quebram essa uniformidade, e o grupo reage, ainda que de forma sutil ou inconsciente.
Essa resistência ocorre tanto em ambientes considerados bons quanto em ambientes ruins. No entanto, nos ambientes ruins, a resistência é ainda maior. Se alguém deseja sair de um ambiente de menor qualidade para buscar algo melhor, o grupo fará de tudo para mantê-la ali. Existem duas razões principais para isso:
- O grupo percebe que, ao querer sair, a pessoa evidencia a mediocridade do coletivo. Para proteger sua autoimagem, o grupo tenta invalidar a decisão de mudança.
- O grupo busca manter a unidade e a harmonia interna. Há um conjunto de crenças, muitas vezes inconscientes, que obriga todos a permanecerem alinhados, evitando divergências.
Portanto, a harmonia que mencionei não é sobre convivência amigável ou cordialidade; é sobre manter todos em uma linha de pensamento similar. Quando alguém tenta se tornar mais autêntico ou seguir um caminho diferente, essa harmonia se vê ameaçada, e a resistência surge, consciente ou inconsciente.
Quem você se torna é uma consequência dos grupos que escolhe frequentar
Quando falo de ambientes, não me refiro exatamente a um local físico. Ambientes, nesse contexto, são grupos de pessoas. E esses grupos moldam quem você é. Se você possui autenticidade, consegue transitar entre diferentes grupos e até se afastar quando necessário. Mas se a sua autenticidade ainda não está bem desenvolvida, será difícil resistir às ideias e hábitos do grupo, mesmo que você discorde ou conteste algumas coisas.
É por isso que, muitas vezes, vemos pessoas adiquirindo maus hábitos ao conviver com más companhias. Nem sempre a pessoa tinha esses comportamentos antes; o ambiente e o grupo exercem uma força enorme sobre quem somos. E essa força se manifesta principalmente nos hábitos.
E o que são esses hábitos?
São ações repetidas constantemente, e são essas ações que moldam o caráter. Você pode ter toda a sabedoria e conhecimento de valores que aprendeu em casa, mas ao entrar em um grupo cujos membros não compartilham desses valores, a influência é inevitável. Maus hábitos se espalham: indisciplina, preguiça, críticas constantes, julgamentos, tudo isso impacta diretamente seu caráter. É a metáfora da maçã podre.
O caráter é medido pelas atitudes, não apenas pelos pensamentos. Uma pessoa pode saber o que é certo, ter opiniões éticas e corretas, mas, se adota hábitos errados, seu caráter é comprometido. Portanto, o maior poder do ambiente é moldar nossos hábitos.
Por outro lado, ambientes positivos também têm esse efeito. Estar em grupos que buscam crescimento, praticam o bem, tratam as pessoas com respeito e alegria faz com que você também se torne assim. O ditado “você é a média das cinco pessoas com quem anda” é real: o ambiente molda quem você é.
A grande lição é clara: mudar de vida, preservar ou fortalecer a autenticidade e buscar crescimento pessoal passa, essencialmente, por escolher bem os ambientes em que você se insere.
Além dos ambientes relacionados aos grupos com os quais você convive, existe também o aspecto dos ambientes físicos — especialmente o lugar onde você mora. Esse fator impacta fortemente sua autenticidade, sua autoestima e suas emoções.
No livro A Mágica da Arrumação, de Marie Kondo, ela afirma que apenas o ato de arrumar a casa já transforma a vida, organiza a mente e regula as emoções. Ela inclusive desenvolve um método para isso. Nesse sentido, o ambiente em que você vive, geralmente o seu lar, influencia diretamente sua mentalidade e seu estado emocional, podendo gerar boas sensações, melhorar o humor e proporcionar mais qualidade de vida. Ambientes desordenados amplificam a desordem da mente; ambientes organizados clareiam pensamentos e elevam a autoestima.
Quando você decide reformar, reorganizar ou decorar seu espaço físico com uma estética harmônica e alinhada ao que você realmente gosta, esse ambiente passa a refletir sua autenticidade. Visualmente, ele representa aquilo que você almeja. Todos os dias, essa estética irá dialogar com você, proporcionando alegria, bem-estar e um sentimento de pertencimento. Sua casa passa a ser um reflexo de quem você é, e ao perceber isso, você experimenta paz, identidade e estabilidade emocional.
Da mesma forma, ambientes limpos e bem cuidados afetam de maneira muito significativa o seu estado interno. Embora o ser humano consiga sobreviver em ambientes sujos ou desorganizados, isso não significa que continuará bem emocionalmente. Cuidar da limpeza, da ordem e da estética do lugar onde você mora cria um impacto direto na maneira como você pensa e sente.
Portanto, o ambiente, tanto físico quanto socia, exerce uma força enorme sobre sua vida. Se você não está em lugares ou convivendo com pessoas que façam sentido para sua história, isso inevitavelmente gerará confusão interna, dúvida de identidade e baixa autoestima. Primeiro, você pode se sentir rejeitado, por não corresponder às expectativas daquele ambiente. Segundo, você pode acabar rejeitando os outros, porque simplesmente aquilo não ressoa mais com quem você é.
Por isso, é essencial buscar ambientes que se conectem com aquilo que você almeja. E, infelizmente, isso pode exigir deixar certas relações para trás, ou ao menos, se afastar. Nem sempre é necessário cortar vínculos; às vezes, o afastamento basta para reduzir conflitos e criar espaço para que, futuramente, os caminhos possam se alinhar novamente.
Cada pessoa vive um momento diferente da vida. Às vezes, você e alguém que ama não estão no mesmo estágio, mas se não houver um afastamento temporário, o desgaste e o conflito podem ser ainda maiores. O afastamento pode ser, muitas vezes, a solução mais saudável.
E, por fim: não tenha medo de ficar sozinho. Às vezes, estar só é justamente o que abre o espaço necessário para que o ambiente da sua vida seja reconstruído de forma coerente com aquilo que você realmente é.
Esse foi o post de hoje. Espero que este conteúdo provoque reflexão sobre o quanto os ambientes têm influenciado sua vida, seus desejos e a forma como você se percebe. Que você observe, com mais consciência, se o lugar onde está, física ou socialmente, está fortalecendo quem você é ou diluindo sua identidade.
Não permita que ambientes o influenciem a ponto de você se perder de si mesmo.
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