Você não precisa aceitar o constrangimento para pertencer

Chegamos ao fim das eleições brasileiras de 2026, e quero trazer uma reflexão sobre constrangimento, justamente por se tratar de uma das coisas que mais marcaram as relações em diversos grupos durante esse período.

Na verdade, esse comportamento não começou agora. Ao longo dos últimos anos, enquanto o Brasil se afundava cada vez mais na polarização política, as pessoas foram se dividindo em grupos que passaram a tratar suas ideologias como verdades absolutas, quase como se os partidos que defendiam fossem um próprio Deus. De um lado, a esquerda lulista; do outro, a direita bolsonarista. Cada vertente construiu suas próprias narrativas, seus discursos cuidadosamente repetidos e suas frases de efeito, enquanto as pessoas se fechavam em bolhas onde quase ninguém estava disposto a questionar as próprias convicções.

No meio disso tudo, porém, havia os moderados: pessoas que não se identificavam integralmente com nenhum dos dois lados ou mesmo que se identificasse, questionavam os políticos e não concordavam com as brigas, as ofensas e a necessidade constante de transformar qualquer divergência em uma disputa. Nesse jogo político de empurra e puxa, os moderados muitas vezes tratados como indecisos, receberam um rótulo pejorativo que se tornou bastante popular: isentões. E, ironicamente, acabaram se tornando os verdadeiros párias dessa guerra ideológica.

A massa têm seus políticos de estimação, defendidos com um fanatismo que, em muitos casos, parece ultrapassar qualquer preocupação com a realidade.

Além de tudo isso, essas eleições foram marcadas por uma artilharia pesada de fake news. E acredito que qualquer pessoa disposta a observar os acontecimentos com um mínimo de coerência perceberia que determinadas narrativas simplesmente não se sustentam quando confrontadas com a realidade. Em muitos momentos, tive a impressão de estar assistindo a pessoas perderem a capacidade de distinguir o que era uma ameaça concreta daquilo que era apenas uma construção discursiva feita para provocar medo.

  • De um lado, havia quem acreditasse que o Brasil estava prestes a sofrer um golpe de Estado fascista, embora a realidade política fosse muito mais complexa do que essa interpretação simplificada. Os próprios bolsonaristas, com suas campanhas frequentemente marcadas pelo populismo e por uma comunicação que, em muitos momentos, me pareceu infantilizada, demonstravam contradições que deveriam ser suficientes para despertar algum questionamento.
  • Do outro lado, circulava a narrativa de que o Brasil seria transformado em uma Venezuela. Imagens falsas e que as pessoas Trans fossem invadir os banheiros femininos e causar transtornos.

Existe uma diferença enorme entre considerar uma possibilidade e tratá-la como um destino inevitável. Não basta construir uma conspiração e repeti-lá milhares de vezes para que ela se torne uma previsão fundamentada.

É justamente aí que percebo o poder do marketing político quando utilizado para explorar os medos e as inseguranças das pessoas. As duas bolhas ideológicas foram expostas a narrativas que, em muitos casos, pareciam argumentos retirados de livros infantis: histórias simplificadas, divididas entre mocinhos e vilões, nas quais um lado representava a salvação e o outro, a destruição. E, quando uma pessoa passa a interpretar a realidade exclusivamente por meio dessas histórias, qualquer informação que contrarie sua visão de mundo deixa de ser uma oportunidade de reflexão e é percebida como um ataque.

Por isso, insisto tanto na importância de estudar continuamente. Não apenas para acumular conhecimento ou aprender a argumentar melhor, mas porque o estudo nos obriga a reconhecer a complexidade das coisas. Quanto mais ampliamos nosso repertório, mais ferramentas temos para questionar nossas próprias certezas, identificar contradições e distinguir um argumento fundamentado de uma narrativa construída para nos convencer. E, quando falo em estudar, não estou me referindo apenas a consumir informações que confirmem aquilo em que já acreditamos. Estou falando justamente do exercício de estudar aquilo de que discordamos, conhecer perspectivas diferentes e nos permitir entrar em contato com ideias que talvez desafiem nossas convicções.

Afinal, de que adianta estudar apenas aquilo que já pensamos saber? Se buscamos exclusivamente informações que confirmem nossas crenças, não estamos desenvolvendo pensamento crítico; estamos apenas alimentando o nosso próprio viés de confirmação. Estudar exige disposição para questionar, inclusive a nós mesmos. Exige reconhecer que podemos estar errados, que nossa interpretação pode ser incompleta e que a realidade nem sempre cabe nas explicações confortáveis que construímos para ela.

Infelizmente, em um país no qual ainda temos tanta dificuldade de cultivar o hábito da leitura, da pesquisa e do estudo contínuo, esse exercício se torna ainda mais difícil. Quando falta repertório, as frases de efeito ocupam o lugar dos argumentos, as narrativas substituem a investigação e a convicção passa a ser confundida com conhecimento. E talvez uma das consequências mais preocupantes disso seja justamente a facilidade com que as pessoas se deixam conduzir pelo medo, pela indignação e pela necessidade de pertencer a um grupo, sem sequer perceber o quanto estão se afastando da realidade que afirmam defender.

É importante ressaltar que as campanhas foram altamente populistas. Grande parte dos medos disseminados pelo marketing político dos dois lados se apoiava em cenários catastróficos, previsões exageradas e narrativas que, muitas vezes, pareciam distantes da realidade concreta. Não estou dizendo que não existam riscos políticos reais ou que devamos ignorar os problemas do país. Estou falando da maneira como esses riscos são apresentados ao eleitorado, frequentemente de forma simplificada e alarmista, para despertar medo e conquistar apoio.

Também não pretendo fazer aqui uma avaliação do caráter ou da trajetória individual dos candidatos, muito menos sugerir que algum deles tivesse uma ficha impecável. Afinal, os escândalos de corrupção e as inúmeras controvérsias envolvendo figuras políticas brasileiras já fazem parte de uma realidade que não podemos simplesmente ignorar. O que me interessa é compreender como o eleitor percebe a realidade política, como constrói suas convicções e como pode ser conduzido por narrativas que exploram suas inseguranças. Inseguranças essas que utilizam para atacar outros eleitores.

Acredito que já está bastante evidente que muitos dos políticos mais populistas que conquistam o voto dos brasileiros estão longe de representar a integridade que dizem defender. Ainda assim, conseguem mobilizar multidões, construir uma imagem de salvadores e convencer seus eleitores de que são a única alternativa possível diante de uma ameaça iminente. É assim que se estabelece uma relação perigosa: o político deixa de ser alguém que deveria ser constantemente fiscalizado e é tratado como alguém que precisa ser protegido. O eleitor, em vez de cobrar explicações, começa a justificar contradições, relativizar escândalos e atacar qualquer pessoa que ouse questionar seu candidato.

E, enquanto isso, o ciclo se repete.

O político alimenta o medo, o medo fortalece a lealdade, a lealdade dificulta o questionamento e a ausência de questionamento permite que novas narrativas sejam construídas.

O eleitor acredita estar defendendo seus próprios interesses, quando, muitas vezes, está apenas reproduzindo os interesses de quem aprendeu a explorar suas emoções. No fim, é justamente essa teia de mentiras, medo e identificação emocional que mantém tantas pessoas presas a figuras políticas que deveriam ser capazes de questionar sem qualquer constrangimento.

Para essas pessoas, eleger o político em quem acreditam parece representar muito mais do que uma escolha eleitoral: é como se aquela vitória confirmasse seu propósito, sua identidade e a superioridade de suas próprias convicções. Como já comentei em outros textos, acredito que muitas pessoas procuram os grupos coletivos em busca de pertencimento, de reconhecimento e até de uma forma de compreender a si mesmas. O problema é que, nessa busca, elas podem acabar se perdendo, deixando de questionar aquilo em que acreditam e defendendo causas que, muitas vezes, nem compreendem profundamente.

Uma parcela dessas pessoas se considera politizada, mas basta conversar um pouco mais para perceber lacunas importantes de conhecimento sobre política, economia e sociologia. Em vez de discussões fundamentadas, o que frequentemente encontramos são argumentos repetidos, discursos prontos e uma necessidade quase compulsiva de confirmar aquilo em que já se acredita. A conversa deixa de ser uma oportunidade de compreender a realidade e se transforma em uma disputa egocêntrica, na qual o objetivo parece ser sempre uma demonstração de superioridade moral, provar que se está certo e, de preferência, fazer o outro se sentir errado.

Dentro desse cenário de guerra ideológica, os moderados se sentiram cada vez mais esgotados psicologicamente. Para evitar conflitos, muitos passaram a medir as palavras, fugir de determinadas conversas e até se afastar de pessoas com quem antes mantinham relações saudáveis. Essas eleições trouxeram desconforto, apreensão e desgaste emocional, aprofundando feridas em amizades e relações familiares que, em muitos casos, já vinham se deteriorando havia algum tempo.

E é justamente por isso que me pergunto: até que ponto o ego humano, a necessidade de provar que está certo e a vontade de vencer uma discussão se tornaram mais importantes do que preservar relações saudáveis?

Você não precisa aceitar o constrangimento para pertencer

Como expliquei na introdução, as pessoas consideradas moderadas, assim como aquelas que tentavam manter relações de amizade e familiares apesar das diferenças ideológicas, foram se esgotando ao longo desse período. E esse desgaste não aconteceu apenas durante as eleições, mas ao logo dos anos que as antecederam.

É cansativo precisar estabelecer limites constantemente, medir as palavras e evitar determinados assuntos porque sabemos que uma conversa pode se transformar, a qualquer momento, em uma disputa sobre quem está certo e quem está errado.

Tenho a impressão de que a política se tornou, para muitas pessoas, uma espécie de palco no qual elas precisam demonstrar uma sabedoria extraordinária. Existem tantos assuntos que poderíamos estudar, tantas áreas do conhecimento que poderíamos explorar para ampliar nosso repertório e compreender melhor o mundo, mas muitas pessoas escolheram transformar a política nesse grande espetáculo de validação pessoal.

No Brasil, as eleições são tratadas quase como uma disputa de times de futebol. As pessoas escolhem seu lado, vestem a camisa e interpretam qualquer crítica ao próprio grupo como uma ofensa pessoal. A vitória do candidato deixa de ser apenas um resultado eleitoral e se transforma em uma confirmação de que estavam certas, de que escolheram o lado vencedor, e de que pertencem ao grupo moralmente superior. É como se o resultado das urnas pudesse determinar quem é mais inteligente, mais consciente ou até mesmo uma pessoa melhor.

E é justamente nesse cenário que o constrangimento começa a operar.

Enquanto algumas pessoas precisam reafirmar constantemente a pureza de suas convicções, outras conseguem perceber que a realidade não é tão simples quanto as narrativas apresentadas por esses grupos. A vida não é composta apenas de preto e branco. Existem inúmeras nuances, contradições e zonas cinzentas que não desaparecem só porque determinada ideologia oferece uma explicação aparentemente convincente para tudo. No entanto, quando você se recusa a aceitar essa divisão simplificada, pode acabar sendo tratado como alguém que não compreende a gravidade da situação, que não tem consciência política ou que está, de alguma maneira, contribuindo para o problema. Essa forma de simplista de ver o mundo, é constrangedora.

Não é normal que uma pessoa precise suportar hostilidade, ofensas ou constrangimentos para que outra possa se sinta moralmente superior por conta do seu time político (é até engraçado). É inaceitável transformar uma conversa em um instrumento de humilhação só porque alguém acredita estar defendendo uma causa justa. E acredito que essa busca pela superioridade, disfarçada de compromisso moral, deveria ser questionada com muito mais seriedade.

Em outros textos, já falei sobre como a mediocridade intelectual nasce justamente do conformismo do senso comum, que rejeita o aprofundamento e o pensamento crítico, e ela pode se manifestar na necessidade constante de demonstrar valor diante dos outros (quando a pessoa tem certeza que é esperta, mas as suas atitudes dizem o contrário).

Leia: Não aceite mediocridades

Vejo uma relação entre esse comportamento e a maneira como algumas pessoas se envolvem em determinadas disputas ideológicas. Parece existir uma necessidade permanente de levantar uma bandeira moral, mas essa bandeira quase sempre é erguida à custa de alguém. Para provar que são boas, conscientes ou esclarecidas, essas pessoas precisam apontar quem é ruim, ignorante ou moralmente inferior. O outro se transforma no instrumento por meio do qual elas confirmam a própria virtude.

O curioso é que, muitas vezes, elas nem percebem o que estão fazendo. Quando alguém aponta essa contradição, a reação costuma ser de estranhamento. Afinal, elas não se consideram pessoas hostis, arrogantes ou intolerantes. Na percepção delas, estão apenas defendendo aquilo em que acreditam, apoiando um político que consideram importante ou protegendo os interesses identitários. Os argumentos retornam sempre ao mesmo ponto: o político é bom, a ideologia é justa, o grupo está do lado certo. E, nesse processo, a possibilidade de questionar o próprio comportamento desaparece.

É assim que alguém que não compartilha desse entusiasmo pode acabar se sentindo acuado. Você está em uma conversa na qual a outra pessoa que se engrandece por meio de narrativas que, muitas vezes, nem foram construídas por ela. Ela reproduz discursos prontos, apresenta interpretações simplificadas e trata suas próprias conclusões como se fossem evidências incontestáveis de inteligência.

  • Se você questiona, precisa se defender.
  • Se discorda, precisa explicar por que discorda.
  • Se não quer participar da discussão, sua recusa pode ser interpretada como ignorância, covardia ou falta de posicionamento.

Sem contar nas chacotas!

E o pior é que, muitas vezes, essas pessoas provocam tantos conflitos que acabam despertando em nós a mesma raiva que demonstram. Ficamos enfurecidos, sentimos vontade de revidar e, em alguns momentos, acabamos caindo na armadilha de agir da mesma maneira. Eu mesma já caí diversas vezes nessa armadilha. No entanto, a vingança não corrige o que aconteceu, tampouco nos torna melhores do que aqueles que nos feriram. Pelo contrário, quando permitimos que a hostilidade do outro determine nossas atitudes, corremos o risco de nos tornarmos tão amargos quanto ele.

Em que momento uma conversa sobre política se tornou uma espécie de interrogatório moral?

Quando penso nisso, lembro de como determinados debates ideológicos são conduzidos sem que exista um conhecimento consistente sobre aquilo que está sendo defendido. Fala-se sobre socialismo, capitalismo, fascismo e tantas outras correntes como se fossem conceitos simples, que pudessem ser compreendidos a partir de algumas publicações nas redes sociais ou de vídeos curtos. Não estou dizendo que todo mundo precisa ser especialista em ciência política para ter uma opinião. Mas acredito que existe uma diferença significativa entre ter uma opinião e tratar essa opinião como conhecimento.

A própria maneira como aprendemos história pode influenciar nossa percepção, sobretudo quando o ensino não estimula suficientemente o confronto entre interpretações, a investigação das fontes e o questionamento das figuras que nos são apresentadas como heróis.

Isso não significa que toda interpretação histórica seja equivalente ou que não existam fatos bem estabelecidos. Significa que precisamos desenvolver a capacidade de investigar, contextualizar e reconhecer as contradições dos personagens e dos movimentos que estudamos. Nenhuma figura histórica deveria estar acima do escrutínio apenas porque representa uma ideia com a qual nos identificamos. Da mesma forma, nenhum movimento político deveria ser tratado como moralmente impecável apenas porque promete defender o coletivo.

E aqui chego a uma distinção que considero importante: existe uma diferença entre se preocupar com o bem coletivo e aderir ao coletivismo como uma identidade que se sobrepõe ao indivíduo. Podemos nos importar com a sociedade, defender políticas públicas, lutar por direitos e reconhecer que dependemos uns dos outros sem abrir mão da nossa capacidade de pensar por conta própria. O problema começa quando o pertencimento a um grupo exige que deixemos nossas próprias dúvidas, percepções e julgamentos do lado de fora.

Quando isso acontece, a pessoa corre o risco de perder a própria identidade em nome de algo que talvez nem compreenda profundamente. Em vez de avaliar cada ideia por seus méritos, aceita o que o grupo determina como correto. Em vez de construir suas próprias convicções, aprende a reproduzir as convicções coletivas. E, quando encontra alguém que não se comporta da mesma maneira, interpreta essa diferença como uma ameaça.

É por isso que considero tão preocupante a desumanização que acompanha a polarização política no Brasil. Não estamos falando apenas de divergências sobre candidatos ou propostas de governo. Estamos falando de famílias que deixam de conversar, amizades que se deterioram e pessoas que passam a enxergar umas às outras como representantes de uma ideologia, em vez de indivíduos complexos, com histórias, valores e contradições próprias.

O ego é colocado em um altar. Tudo passa a girar em torno da identidade que construímos, da imagem que queremos transmitir e da necessidade de provar que estamos do lado certo. E, enquanto nos preocupamos em defender essa imagem, deixamos de perceber o que estamos fazendo com as nossas relações.

Sempre digo que a política é, também, um jogo de interesses. Por isso mesmo, acredito que deveríamos manter uma postura crítica diante dos políticos e de suas promessas, independentemente do partido que representam. O voto secreto existe justamente para proteger a liberdade de escolha do eleitor, permitindo que cada pessoa decida sem precisar revelar sua preferência ou sofrer pressões por ela. No entanto, parece que estamos caminhando na direção oposta: cada vez mais, as pessoas sentem que precisam justificar suas escolhas políticas, como se devessem prestar contas de sua consciência a um tribunal formado por amigos, familiares e desconhecidos.

Nas redes sociais, essa exigência se tornou ainda mais evidente. Influenciadores e pessoas comuns são pressionados a declarar seu posicionamento político, como se o silêncio ou a recusa em aderir a uma das narrativas significassem necessariamente cumplicidade com o lado oposto. Não basta produzir conteúdo, trabalhar, compartilhar conhecimentos ou desenvolver um trabalho consistente. Em determinados ambientes, parece que também é necessário apresentar um certificado público de alinhamento ideológico para continuar sendo aceito.

Posso dizer que me decepcionei muito ao perceber esse comportamento no próprio meio cultural do qual faço parte. Sempre fui uma crítica da cultura do cancelamento e continuo considerando profundamente ruim o hábito de reduzir uma pessoa ao candidato em quem ela vota. Para mim, é uma forma extremamente limitada de avaliar o caráter de alguém. Prefiro observar os valores que uma pessoa demonstra, a maneira como trata os outros, suas atitudes e a coerência entre aquilo que diz defender e aquilo que efetivamente prática.

Isso não significa que escolhas políticas sejam irrelevantes ou que não possamos questionar as consequências das posições de alguém. Significa apenas que existe uma diferença entre criticar uma ideia, examinar as implicações de uma escolha e transformar uma pessoa inteira em objeto de rejeição por não corresponder às expectativas ideológicas de determinado grupo.

Já vi como influenciadores podem ser rejeitados e hostilizados simplesmente por não votarem conforme parte do seu público esperava. E confesso que, durante muito tempo, tive receio de me expor na internet justamente por causa desse ambiente. Existe um desgaste em saber que qualquer manifestação pode ser retirada de seu contexto, interpretada da pior maneira possível e utilizada como justificativa para uma onda de hostilidade.

Hoje, porém, sinto-me mais tranquila. Não porque a hostilidade tenha desaparecido, mas ao passar a compreender melhor o mecanismo por trás dela. Percebi que muitas pessoas estão tão imersas em suas próprias bolhas que já não conseguem enxergar com clareza o que está acontecendo fora delas. Interpretam o mundo a partir das narrativas que consomem, confundem a repetição de uma ideia com a comprovação de sua verdade e acreditam estar defendendo princípios quando, muitas vezes, estão apenas reproduzindo comportamentos aprendidos dentro de seus grupos.

Essa compreensão não me faz considerar aceitável o que acontece. Tampouco significa que eu me julgue imune a erros ou a vieses. Apenas me permite olhar para essas situações com um pouco mais de distanciamento e não atribuir tanto poder ao julgamento de pessoas que talvez nem estejam dispostas a compreender aquilo que critico.

E foi nesse processo que entendi algo importante: eu não preciso me submeter a esse constrangimento para pertencer. Não preciso revelar minhas convicções para satisfazer a curiosidade de alguém, participar de discussões que não desejo ter ou demonstrar minha superioridade moral para provar que sou uma pessoa consciente. Também não preciso aceitar que alguém transforme minhas escolhas em motivo de humilhação para preservar uma amizade ou continuar sendo aceita em determinado ambiente.

Pertencer não deveria exigir que abandonássemos a nós mesmos. Uma relação saudável precisa comportar diferenças, dúvidas e até discordâncias profundas sem que isso se transforme automaticamente em uma disputa pela dignidade de cada pessoa.

Se, para continuar em um grupo, você precisa esconder o que pensa, aceitar ofensas ou suportar constrangimentos constantes, talvez seja necessário questionar não apenas o comportamento dos outros, mas também o preço que está pagando para permanecer ali.

Afinal, de que adianta pertencer a um grupo se, para isso, você precisa deixar de ser quem é?

Relato pessoal: a hostilidade nas relações

Meu relato de hoje é um pouco triste, pois passei por um processo de desapreço por pessoas que, na minha percepção, eram extremamente admiráveis. E não digo isso devido às ideologias que elas defendem, tampouco porque eu me considero moralmente superior a elas. Muito pelo contrário. O que me levou a rever a admiração que sentia por algumas dessas pessoas foi a maneira como fui tratada, a hostilidade que encontrei em relações que, até então, tinham um significado positivo para mim.

Como já disse em outros momentos, não tenho interesse em me apegar cegamente a uma ideologia, nem acredito que as pessoas precisem compartilhar das mesmas convicções para conviver de maneira respeitosa. O que me importa é que cada um tenha liberdade para construir suas próprias ideias, questioná-las e seguir o caminho que considera mais coerente, sem precisar transformar suas diferenças em motivos para confrontar ou hostilizar os outros.

O problema começa quando essas diferenças deixam de ser apenas diferenças de pensamento determinam a maneira como somos tratados.

Quando comecei a discordar de alguns dentro de alguns debates, experimentei a rejeição.

Não tenho problema algum em pensar diferente das outras pessoas. Posso conviver com alguém que defende ideias completamente opostas às minhas e continuar admirando essa pessoa, se existir respeito mútuo. O que considero cruel é quando um grupo se une para fazer chacota de alguém, constranger essa pessoa ou transformá-la em motivo de piada simplesmente porque ela deixou de compartilhar das mesmas convicções.

Embora este seja um relato bastante pessoal, sei que não sou a única que passou por esse tipo de situação. E, apesar de a política ter sido o contexto em que vivi essas experiências, acredito que o problema vai muito além das ideologias. Ele aparece sempre que alguém pensa de uma maneira que destoa daquilo que um grupo considera aceitável.

Pode acontecer em uma família, em um círculo de amizades, no ambiente de trabalho ou até mesmo em espaços culturais dos quais fazemos parte. Enquanto concordamos com a maioria, somos aceitos. Mas, quando começamos a questionar determinadas ideias, a discordar de comportamentos ou simplesmente a seguir um caminho diferente, corremos o risco de nos tornarmos o alvo das brincadeiras, das críticas e dos julgamentos coletivos.

Dói porque, muitas vezes, as pessoas não se limitam a discordar de você. Elas recorrem a argumentos ad hominem, atacam com a intenção de fazer você se sentir culpado e tentam transformar suas convicções em defeitos de caráter. De repente, você não está mais discutindo uma ideia: está sendo colocado na posição de alguém que precisa justificar a própria dignidade diante dos outros.

O mais desconcertante é que você não sente mais seguro naquele grupo. E mesmo sabendo que está apenas seguindo suas convicções, refletindo sobre aquilo em que acredita e tentando construir uma visão de mundo que faça sentido para você e não necessariamente tentando convencer ninguém, ainda assim, sua simples divergência parece incomodar tanto que as pessoas sentem necessidade de constrangê-lo.

E dói ainda mais quando você tem clareza sobre o que busca, sobre os valores que considera importantes e sobre os motivos que o levaram a pensar de determinada maneira. Você não chegou às suas conclusões da noite para o dia, nem necessariamente por influência de alguém. Houve reflexão, estudo, questionamentos e mudanças de perspectiva. Mesmo assim, outras pessoas insistem em apresentar aquilo que você considera positivo em sua trajetória como se fosse algo condenável, como se o fato de você não concordar com elas fosse suficiente para colocar em dúvida suas intenções e seu caráter.

Existe uma crueldade particular em perceber que pessoas que você admirava são capazes de se unir para fazer você se sentir pequeno. Porque parecem incapazes de aceitar que você tenha o direito de construir ideias por conta própria. É nesse momento que a admiração começa a se desfazer. Você passa a enxergar comportamentos que antes não percebia e a questionar se conhecia, de fato, aquelas pessoas ou se conhecia apenas a versão delas que existiam enquanto vocês concordavam.

Esse é o meu relato de hoje. E imagino que você, que está lendo este texto, provavelmente já tem passado por alguma experiência semelhante. Talvez tenha sido devido à política, da religião, de escolhas profissionais, de relacionamentos ou de qualquer outra questão em que sua maneira de pensar tenha entrado em conflito com a do grupo ao qual você pertencia.

E talvez você também já tenha feito parte da maioria, daquela posição confortável de quem não destoa, de quem compartilha das mesmas opiniões e ri das mesmas piadas. Mas, em algum momento, é possível que você passe a pensar diferente. Pode mudar de ideia, descobrir algo novo, questionar uma convicção antiga ou simplesmente perceber que não quer mais seguir determinado caminho.

É nesse momento que você descobre como é estar do outro lado.

Você entende o que significa ser apontado, constrangido e reduzido a uma opinião. Percebe como é cruel quando as pessoas deixam de enxergar quem você é para enxergar apenas aquilo de que você discorda. E talvez compreenda, finalmente, que o respeito que parecia existir naquela relação dependia de uma condição silenciosa: você precisava continuar sendo alguém com quem todos concordavam.

Ninguém deveria precisar escolher entre a própria consciência e o direito de continuar pertencendo a um grupo. E nenhuma amizade deveria exigir que você escondesse suas convicções para não se tornar motivo de chacota.

Porque, no fim, a questão não é quem está certo em cada divergência. Mas se conseguimos reconhecer a humanidade do outro mesmo quando ele deixa de pensar como nós.

A performance da moralidade

Por último, quero falar sobre a performance da moralidade, algo que observo há muitos anos nas relações humanas, mas que parece ter ganhado proporções ainda maiores com a polarização política. Os dois lados apresentam comportamentos semelhantes quando se trata de demonstrar superioridade moral, seja nas relações cotidianas, seja nas redes sociais. E, pensando bem, essa necessidade de parecer moralmente superior não começou com as eleições. Muito antes de a política se transformar em uma espécie de identidade pessoal, as pessoas sempre gostaram de se colocar em uma posição de superioridade diante das outras.

Talvez isso tenha alguma relação com a nossa busca por poder, reconhecimento e validação. Freud, em Psicologia das massas e análise do eu (FREUD. Psicologia das massas e análise do eu,1921. Disponível em: <https://www.gutenberg.org/cache/epub/35877/pg35877-images.html>. Acesso em: 27 de out. 2026.), explorou como os indivíduos estabelecem vínculos com os grupos, identificam-se entre si e compartilham ideais que influenciam a maneira como enxergam a si e aos demais. Uma das questões que podemos extrair dessa reflexão é como o pertencimento coletivo interfere na identidade individual. Quando um grupo se torna uma referência central para a maneira como alguém avalia o próprio valor, defender os ideais desse grupo pode deixar de ser apenas uma escolha intelectual e ser uma necessidade emocional.

É interessante pensar nisso porque, quando a identidade de uma pessoa está profundamente ligada a determinado grupo, qualquer crítica dirigida a esse grupo pode ser percebida como uma crítica à própria pessoa. Ela já não está apenas defendendo uma ideia, mas também a imagem que construiu de si mesma por meio daquela ideia. E talvez seja justamente por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade de admitir que estão erradas. Reconhecer um erro exigiria, em alguma medida, confrontar a imagem de perfeição que tentam sustentar diante dos outros.

Cresci em um ambiente no qual era bastante corrigida, mas nunca desenvolvi essa mesma necessidade de evitar o erro a qualquer custo. Sempre pensei que errar faz parte do processo de aprender. Quanto mais nos dispomos a experimentar, inclusive aquilo que é difícil, mais oportunidades temos de descobrir o que funciona e o que precisa ser corrigido. O erro não é necessariamente o oposto do acerto; muitas vezes, é uma das etapas que nos conduzem até ele.

O que me chama a atenção, porém, é como tantas pessoas parecem ter uma relação completamente diferente com o erro. Elas não querem estar erradas, não querem ser corrigidas e, sobretudo, não querem que os outros percebam suas contradições. Ao mesmo tempo, parecem sentir um prazer enorme em apontar os erros alheios. É como se reconhecer as falhas de outra pessoa oferecesse algum tipo de compensação pelas próprias inseguranças. Em vez de se preocuparem em compreender melhor a realidade, dedicam energia a encontrar evidências de que alguém é menos inteligente, menos consciente ou menos digno do que elas.

E foi justamente esse comportamento que vi se multiplicar durante o período eleitoral. Basta observar as publicações nas redes sociais para perceber quantas delas são dedicadas a criticar, ridicularizar ou condenar outras pessoas. São frases de efeito como: “Essa culpa eu não carrego” (que considero até engraçada rs). Algumas dessas mensagens podem até expressar limites legítimos, mas também podem funcionar como instrumentos de autopromoção moral. A pessoa publica uma frase, recebe aplausos de quem compartilha da mesma visão e reafirma para si mesma e para os outros que está do lado certo.

Cheguei a achar engraçado observar como ambos os lados reproduziam esse mesmo comportamento. As frases mudavam, os símbolos eram diferentes, as bandeiras representavam projetos políticos distintos, mas a estrutura da performance era muito parecida. Cada grupo tinha suas próprias mensagens de efeito, seus próprios vilões e suas próprias maneiras de demonstrar indignação. Todos pareciam convencidos de que a própria posição merecia aplausos, enquanto a posição contrária precisava ser exposta, corrigida ou ridicularizada.

As redes sociais se transformaram em um grande palco para essa representação. As pessoas publicam fotografias em manifestações, aparecem segurando bandeiras e cartazes, fazem símbolos com as mãos e registram cada momento como se estivessem protagonizando uma cena histórica.

Tudo se tornou muito cinematográfico. Com os recursos das câmeras dos Iphones e a facilidade de transformar qualquer acontecimento em conteúdo, até a participação política parece precisar de uma estética própria, de uma imagem que possa ser compartilhada e reconhecida pelos outros.

Quando tudo precisa ser registrado, publicado e acompanhado de uma frase de efeito, fico me perguntando até que ponto as pessoas estão vivendo suas convicções e até que ponto estão representando uma versão idealizada de si mesmas.

A política, nesse sentido, parece ter assumido uma dimensão quase fantasiosa da psique humana. Algumas pessoas se comportam como se estivessem vivendo dentro de um filme, participando de uma revolução histórica na qual cada gesto precisa demonstrar de que lado estão. A realidade concreta, com suas contradições e seus limites, acaba ficando em segundo plano. O que ganha destaque é a narrativa que cada pessoa constrói sobre si mesma: a de alguém que luta pelo bem, que compreende o que os outros não compreendem e que está disposto a enfrentar aqueles que considera moralmente inferiores.

Em determinados momentos, essa encenação chega a produzir situações que me deixam genuinamente confusa. Vi manifestações e protestos em favor do governo atual que me fizeram questionar qual era, afinal, o objetivo político daquela mobilização, especialmente quando dirigidos a representantes que ainda estavam no exercício do governo. Fizeram uma revolução a favor do próprio sistema em vigor? O que me intriga é quando os símbolos, os discursos e a estética da manifestação parecem mais evidentes do que as reivindicações concretas que deveriam sustentá-la.

Afinal, uma manifestação deveria servir para expressar demandas, pressionar autoridades e produzir algum tipo de mobilização em torno de questões reais. Mas, quando a política se transforma em uma disputa de imagens e identidades, existe o risco de que a representação do engajamento se torne tão importante quanto, ou até mais importante do que, o próprio engajamento.

E talvez essa seja uma das contradições mais interessantes do nosso tempo: vivemos cercados de informações, temos acesso a uma quantidade enorme de conhecimento e dispomos de ferramentas que poderiam ampliar nossa compreensão do mundo. Ainda assim, parece cada vez mais difícil conversar com alguém que esteja verdadeiramente disposto a examinar as próprias convicções sem as transformar em uma disputa pessoal.

Não quero dizer que as pessoas tenham perdido completamente a capacidade de pensar ou que toda manifestação de indignação seja falsa. Seria injusto generalizar dessa maneira. O que percebo é que a lógica das redes sociais favorece determinados comportamentos: a reação rápida, a frase contundente, a exposição adversária e a busca por reconhecimento. Nesse ambiente, demonstrar certeza costuma ser mais recompensador do que admitir dúvidas, e condenar alguém publicamente pode render mais aprovação do que tentar compreender uma situação em toda a sua complexidade.

A performance da moralidade também oferece uma vantagem emocional. Quando conseguimos nos colocar no papel de quem está defendendo o bem, podemos deixar de examinar nossas próprias contradições. Se estamos convencidos de que pertencemos ao lado justo da história, torna-se mais fácil acreditar que nossas atitudes são justificáveis, mesmo quando reproduzimos comportamentos que condenaríamos se partissem de alguém do outro lado. A intenção que atribuímos a nós mesmos passa a valer mais do que as consequências reais das nossas ações.

É por isso que considero tão importante questionar essa necessidade de parecer bom o tempo todo. Existe uma diferença entre procurar agir de maneira ética e precisar ser reconhecido como uma pessoa moralmente superior. A primeira exige reflexão, responsabilidade e disposição para rever as próprias atitudes. A segunda pode se transformar em uma busca interminável por aprovação, na qual precisamos encontrar alguém que pareça pior do que nós para continuar satisfeitos com a imagem que construímos de nós mesmos.

Talvez o problema não esteja apenas no desejo de poder, mas também na maneira como aprendemos a buscá-lo. Nem sempre queremos controlar instituições, conquistar cargos ou exercer autoridade formal. Às vezes, queremos apenas controlar a narrativa sobre quem somos. Queremos ser vistos como inteligentes, conscientes, generosos e corretos. Queremos que os outros reconheçam nossas virtudes, validem nossas escolhas e confirmem que estamos do lado certo. E, quando não conseguimos essa validação por meio das nossas próprias atitudes, podemos tentar conquistá-la apontando as falhas alheias.

A política oferece um terreno especialmente fértil para isso porque reúne identidade, pertencimento, valores e disputas concretas de poder. Ela nos coloca diante de questões importantes sobre a sociedade, mas também nos oferece grupos com os quais podemos nos identificar e adversários contra os quais podemos nos definir. Em vez de nos perguntarmos continuamente se nossas ideias fazem sentido, podemos acabar nos preocupando mais em demonstrar que não somos como aqueles que rejeitamos.

E, nesse processo, o outro, deixa de ser alguém com quem podemos discordar e passa a ser uma espécie de ameaça à imagem que construímos de nós mesmos.

Talvez seja por isso que o constrangimento coletivo tenha se tornado tão presente nas relações. Ridicularizar alguém que pensa diferente não serve apenas para contestar uma ideia; também pode funcionar como uma maneira de reafirmar a própria posição diante do grupo. Ao demonstrar que não somos como aquela pessoa, recebemos a aprovação daqueles que compartilham das nossas convicções. A humilhação do outro se transforma, então, em uma espécie de espetáculo de pertencimento.

E o mais curioso é que esse comportamento pode acontecer justamente entre pessoas que afirmam lutar por um mundo mais justo, mais humano e mais consciente.

  • De que adianta defender a liberdade se não conseguimos aceitar que alguém pense diferente?
  • De que adianta falar sobre empatia se utilizamos a vulnerabilidade alheia como motivo de chacota?
  • De que adianta nos considerarmos esclarecidos se não estamos dispostos a questionar o próprio comportamento?
Onde você está no meio disso tudo?

Talvez a verdadeira dificuldade esteja em reconhecer que não precisamos ser moralmente perfeitos para agir de maneira ética. Precisamos, antes, desenvolver a capacidade de reconhecer nossos erros, examinar nossas intenções e assumir a responsabilidade pelas consequências das nossas atitudes. Isso exige muito mais do que publicar frases bonitas ou escolher um lado em uma disputa política. Exige uma disposição constante para olhar para dentro, inclusive quando aquilo que encontramos não corresponde à imagem que gostaríamos de apresentar ao mundo.

No fim das contas, não sei se estamos vivendo uma época em que as pessoas se tornaram mais moralistas ou se apenas ganhamos ferramentas que tornam esse moralismo muito mais visível. Talvez ambas as coisas estejam acontecendo ao mesmo tempo. O que sei é que tenho sentido falta de relações nas quais as pessoas possam conversar sem precisar vencer, discordar sem precisar humilhar e reconhecer um erro sem sentir que estão perdendo a própria dignidade.

E é justamente por isso que termino este texto com uma pergunta que não se dirige apenas a quem está do outro lado da tela, mas também a mim mesma:

Porque, antes de tentar provar que o outro está errado, talvez precisemos compreender por que sentimos tanta necessidade de estar certos.


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